sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Metacromasia

Não tocou no assunto, o silencio falou por si, em um dialogo contido e sem respostas, um monólogo de drama e suspense.

O admirar, o fingir não notar, eternidade efêmera a transcorrer com leve som externo a se mover.

Som este tão singelo perto do estrondo tempestuoso que ocorria em sua mente; torrentes de pensamentos inundavam o ser... Assim como as tempestades estes também possuíam seus admiradores e sua beleza eterna e pesada, levando consigo tudo, arrasta e carrega, envolve e afoga.

O impulsionar sem se envolver ― não gostaria de ser este a puxar o assunto, fingiu não coordenar, dizia nada haver preparado, mas tudo estava lá, minuciosamente preparado, nem mesmo a fotografia não poderia ser mais propicia.

Observavam de cima o movimento insano de todas aquelas pessoas apressadas que buscavam chegar na hora para seus compromissos, assistiam a todo o tumulto sem o menor envolvimento; contemplavam de cima todas as preocupações dos seres humanos ― doce ilusão que uma bela imagem poderia criar.

Bela imagem de pano de fundo para ouvir um não que viera de longe para receber, gostaria de ouvi-lo logo em seu primeiro dia e tudo poder então esquecer, o discurso ensaiado saiu como se não houvesse sido praticado, a ação ecoou sem direção, perdeu-se a ligação dentre eles. Assim a cena se eternizou, no entanto o “não” mesmo não havendo sido pronunciado iria ecoar mudo em um futuro.

Mítica garoa caia fina na noite espessa molhava as faces enrubescidas, assim como os lábios envoltos pela frieza da garrafa que transbordava vinho tinto. A temperatura caia, por mais que existisse calor em seu interior; o frio congelava as mãos e arrepiava levemente a epiderme.

Em uma teimosia perversa típica insistiam em mostra-se mais forte que o clima, mantinha-se paralisados no mesmo banco, prosseguiam sóbrias as conversas ébrias sob a fotografia sombria em tons quentes.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Últimas Notícias

Não passou na mídia de massa:

“Mais um massacre:
 Inocente esvaindo em sangue, seu crime: ter lutado por um direito básico o direito básico de ter um teto. Morreram estes em prol do direito de uns e outros encherem o c* de dinheiro.”

A matéria continuava com seu falatório mudo:

“Quem decidiu sobre a vida ou a morte daqueles? O Estado. Quem financiou o aparato? Eu você, e todos nós. Pagamos impostos para ajudar no financiamento do massacre de nossos irmãos de luta. Governante, cristão, de boa família repousa sob o travesseiro após engolir almas e escarrar sangue na cara do povo.
Reza a lenda que seu partido havia sido contra a ditadura, grande novidade...  A Direita de hoje era a Esquerda de ontem; a Esquerda de hoje são aqueles poucos que lutam para conquistar o poder e então poderem se corromper.”

Lembrará disso em seu passeio matutino, lembrara com um hibrido de velha memória, devaneio, embriaguez e cansaço; esforçara-se, mas o franzir do cenho em nada a auxiliava em remeter suas memórias. Acendeu o cigarro, o levou á sua boca empalidecendo o batom vermelho em seus lábios, escurecendo seu pulmão, pouco a ela restava, era o ultimo dia de sua vida, era o ultimo dia da vida de todos aqueles que a cercavam e de todos aqueles os quais não tivera oportunidade de conhecer, de amar, de odiar, ou de em sua vida passar sem nada alterar. Havia decidido contemplar a humanidade, sair vestindo nada embaixo de um sobretudo, coturno  desamarrado com meia 7/8 rasgada. Escolhera o visual de modo a não perder seus últimos minutos com futilidades como roupa, e ao mesmo tempo parecer elegante ao esperar pelo grande show.

Milhares de gerações haviam clamado por este momento que ela estava prestes a presenciar, a pauta máxima comunista e anarquista: o fim de uma sociedade desigual estava anunciado para aquele fim de tarde. Por ironia daquilo que não existia, o chamado Destino, isso se daria com o fim da raça humana, patrocinada pelas grandes empresas, grande show com fogos de artifício, whisky sem gelo, full HD, transmitida para todo o mundo, enfim luzes, explosão, camarins de pessoas famosas, os bastidores dos famosos.

Quem assistiria tudo aquilo? Era o fim do mundo, quem estava se importando com televisão? Aqueles que se deliciavam com o cortar das linhas que os prendiam como marionetes, enfim estariam livres da escravidão, pena que por tanto tempo, ao menos tinham o que comemorar, era a primeira vez em toda a história da humanidade que os menos favorecidos teriam seus primeiros e últimos minutos de liberdade suprema. Aguardavam como condicionados estavam: em frente à TV só assim saberiam o momento exato.

Ela passava e observava todas as TVs ligadas, todas em um mesmo canal sintonizadas, por mais que em todos os canais passem a mesma coisa, a prioridade continuava sendo a mesma.

Era o fim de tudo, e tudo seguia seu rumo até lá, esforçavam-se todos em prol de manter tudo nos conformes, manter tudo como sempre se lutara para manter, tudo igual, transcorrendo por inércia. Manter a rotina e os conformes era o ultimo desejo dos poderosos, os donos da festa niilista.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ócio da Madrugada

Fim de um dia de verão, por entre a escuridão chagada à hora de seu encontro com a solidão, na hora marcada, madrugada, imensa nesta, ao tatear depara-se com silencio. A temperatura se torna enfim mais amena, a tranqüilidade imunda a sala; a cidade que não dorme estava agora a tirar o sono dos pacatos moradores das pequenas litorâneas.

Sabia que muitos possuíam modo similar de aproveitar seus dias dedicados única e exclusivamente ao ócio, invertendo os dias abafados pelas noites serenas.

Lembrou-se então de inúmeras conversas ínfimas adentrando madrugadas sobre assuntos profundos tratados de forma simples e cotidiana. Acompanhou o movimento de chegadas e saídas, observou pela janela que inúmeras pessoas compartilhavam de sua insônia voluntária.

Liberdade detinha agora para estudar aquilo que não alimentará o corpo e sim a alma; momento de voltar à essência e buscas novas filosofias, rever questões políticas, apaixonar-se pela literatura. Apaixonar-se pela inconstância, aprender a praticar o desapego. Voltar a interessar-se por assuntos antigos. Reencontrar a paixão pela existência e pelo existencialismo, deixar de lado o niilismo cotidiano.

Desprender-se, o corpo se mantém em seu lar, a mente não mais está. Fez então um café, acende a luz, empunhou a caneta em sua mão e começa a redigir madrugada adentro. É bom estar de volta.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Azul

Azul é a única coisa que eu tenho daquela época... 
Eu já não tenho mais o mesmo sorriso.
A beleza deste já desbotou como meu vestido.
Assim tudo se acabou,
pensando eu que nada tinha mudado
exceto a minha forma de ver as coisas. 

Azul para ingleses: tristeza, 
para os alemães: alegria, 
Para mim: nostalgia 

daquele olhar sarcástico e desinibido.


Obs.: texto datado de um longinquou período, sendo que não mais destes sentimentos compartinho, apenas da memória de um tempo não esquecido.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Análise de Caso / Há tempos

“Eu não tenho tempo!
Ele não é meu e nunca será de minha posse.
Será que ele me tem?!
Só sei q ele some, evapora furtivamente,
é altamente volátil.”
Havia escrito há algum tempo atrás.

Continuava sendo verdade, continuava aflita por nada conseguir fazer e ser diariamente engolida por esse grande desconhecido. Até o dia em que finalmente compreendeu sua patologia: Criará uma imagem irreal, apaixonou-se por ela.  

Assim como nos desenhos animados, só caiu após ver que pira em falso. Até então estava tudo certo, exceto pela mania de acreditar no pior. Seu lado pessimista torcia pelo fracasso apenas para dizer: “Lhe avisei”.

Passado o tempo, descobriu que se apaixonara pelo impossível, apaixonara-se pelo Futuro. Acreditava não possuir o Presente, acreditava que nunca daria certo com esse, enquanto este era o único que sempre estivera a seu dispor. Enquanto isso, ela buscava incessantemente o Futuro que nunca olhou para trás enquanto ela o perseguia.

 Mantinha também um relacionamento aberto com o Passado, sendo, no entanto algo mais físico, no qual não conseguia resistir a todo aquele alinhamento, aquela postura esguia, seu extenso vocabulário e toda erudição e formalidade.

Até que enfim viu que o Futuro era nada mais que um escape, um escape para um lugar distante, onde via projetada alguém que não era ela, onde seu pensamento adito insistia em estar, insistindo em não ver o Presente.

Percebera: Não adiantava em nada gostar do Futuro, era inalcançável, só lhe frustrava, estava viciada nessa frustração, na verdade usava essa desculpa para não se entregar ao Presente, mentia para este, mentia para si mesma.

Despediu-se de todos,
Especialmente de sua melhor amiga,
Amiga de longa data,
Velha e fiel Ansiedade
Assim resolveu aceitar o Presente.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Miopia

De tanto olhar para o micro
Deixará de compreender o macro
De tanto olhar no microscópio
Não reconhece mais os de sua própria espécie
Esqueceu de quem seria
Como um ser em sua totalidade.
Compreendia as micromoléculas,
Mas não compreendia sua própria conformação
Compreendia Neurobiologia
Não compreendia o que pensava

Buscava evidencias apoiadas em dados
Buscava confirmação por análises estatísticas
Não acreditava nem que sua existência
poderia ter resultados significativos
Com o passar do tempo,
Desenvolverá miopia.
Se concentrado no que poucos contemplavam
Não conseguia admirar aquilo que lhe cercava.

A beleza que se dissipava em meio a todos
Não percebia a beleza que em torno de si existia
Aquela a qual auxiliava compor
Em todo seu esplendor e harmonia
Apenas vultos e artefatos compreendia.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Seguia

Seguia ela o caminho,
Já não sabia mais para onde ia,
Não mais lhe conhecia
Seguia só,
Seguia com um alguém,
Seguia com outro

Ninguém entendia
O que ela fazia
O que ela queria
Nem ela mesma

Seguia por ruas vazias
Seguia por estradas de chão
Seguia por vilarejos
Ouvia sons, mas não os compreendia
Ouvia passos, mas estava sozinha
Amava seu delírio
Não era correspondido

Delirava então que amava
Quem?
Ela não sabia
Sentia-se então culpada

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Abnego

Abnego de ti.

Abneguei em muito nos últimos tempos.
Abneguei de meu lar,
Minha estabilidade,
Minha sanidade.

Abneguei-me de minhas mentiras,
Abnego-me agora das tuas.

Passado o tempo vi que não conseguiria
mais viver minha vida daquela forma, 
não aguentaria mais meu corpo preso aqui, 
estando minha essência distante, 
contigo em outro universo.

Abneguei inclusive de mostrar-me 
tal como sempre quis: 
inatingível, inabalada;
No entanto,
mostrei-me como sempre
foi de meu agrado: com convicção e determinação.

Percebo que a teoria mostra-se diferente da prática.
Percebo que a imagem construída, desmorona, se liquefaz.
Percebo que talvez tudo aquilo que me encantou,
talvez fosse,
apenas um delírio incontido dentro de si mesmo.

A letargia manteve-me por todo esse tempo,
Adita neste placebo, agora revelado.
Fim do teste de duplo cego,
O qual se mostrou estatisticamente significante
Para o tubo branco.

No entanto.

O que seria o fim,
Senão um começo
de trás para frente.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Restaura-se

“O que procura você naquilo que já conheces?” – perguntou-lhe

“Procuro aquilo que já conheço porem que havia esquecido, cansei de procurar em corpos, copos, ambos sempre vazios, em calçadas na frente dos bares lotados... At last He used to like me... Não tem como procurar algo profundo na vazão de todas essas relações, não há como encontrar nada, estou eu e somente eu, eles estão acompanhados, eu estou na companhia das minhas próprias ilusões no canto a observar, porem sem me comover.”

“Disfarças bem neste canto” – interviu.

“Gostaria de ter o que disfarçar;
sou meu próprio disfarce,
sou minha própria marginalidade,
sou o reflexo de toda austeridade.”
– declamou para sua dose de bourbon.

“Sou a sobra que ofusca
seu próprio brilho,
sou todos os desatino,
Sou a torcida por todos,
Os quais torcem pelo meu fim.”

“Sou aquilo que acabará
por confiar naquilo que,
por ela, deixou de ser,
Cairá em sua própria armadilha
Com o sentimento de Déjà Vu "

“Compreendo... Mas e aquele seu problema de ansiedade, resolveu?” 
– Mais uma vez lhe interrompeu.

“Minha ansiedade ainda existe
Antes esperava pelo melhor
Agora ela continua
Mas não vejo muito além.”

“A gente costumava ser amigo, porque você sumiu?”

“Eu não sumi, você que nunca mais apareceu....”
–Respondeu, pela primeira vez sem interromper lhe.
“...Nem para si mesmo...” – Concluiu baixinho.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Autodestruição

Procurou, encontrou, no fundo sabia estava correndo seu fígado e por isso bebia, sabia que no fundo não tinha motivos para comemorar. Acreditava ter que descer até o fundo do poço para poder se reencontrar. Afastou-se de tudo e de todos, se juntou a desconhecidos, desceu ao subterrâneo, dizia procurar aventura, dizia procurar pessoas, no fundo só queria a escuridão e esquecer-se de si mesmo.

 Dia desses cambaleando pela rua escura encontrou um velho conhecido, velho amigo, um dos poucos que ainda se importava, não viu este, não via nada, não se importava com nada, não temia, buscava sabotar a si mesma, não se importava, não queria ninguém que se importasse. Fechava-se em si, ria esquizofrenicamente por fora, gritava desesperadamente por dentro. Buscava alguma coisa destruindo-se assim, talvez remissão, autoflagelação, talvez ressurreição, talvez se tornar fênix.

Sabia que poucos eram o que viam sua queda, poucos eram o quais compreendiam sua alma vendida, trocada por uma garrafa de gim barata. Um preço justo por um fracasso, um preço justo por uma perda tão fútil, um preço de quem não sabe quem é não conhece o valor que tem, preço de quem foi até o inferno e voltou no mesmo dia, mas que nunca seria permitida a entrada no céu.

Olhava para baixo, para onde iria estar em breve, ao fundo, cada vez mais profundo... Surge na sua frente uma mão, não saberia dizer ao certo de quem. Pega nesta e levanta. Olha para cima e lá estava a velha companhia, não acreditara, levantou-se tentou parecer menos mal, envergonhou-se.

-Tudo bem agora, vem, vamos para casa, farei um chá. Arrumo-te uma banheira, trouxe algumas roupas que havias deixado lá em casa quando costumávamos nos encontrar e passar as tardes a filosofar, tem uma cama lá te esperando.

Ela partiu, estava trilhado o caminho de Dante partindo para o limbo, em direção ao paraíso.

Dia Ensolarado

Não sabia se era o sol ameno sobre seu corpo, a luz do dia incidindo em seu rosto, o vento suave em seu cabelo... Componentes daquele dia muito bem desperto ou se seriam os resquícios da noite passada; muito bem pouco dormida. Sabia apenas que se senti bem e com isso parecia compreender a essência do universo, sem precisar se perder em meio à física e a filosofia. Toda a filosofia da vida fazia parte dela. Sentia-se flutuando, voando baixo, sua mente voando alto, sua essência em órbita, a emanar de si e preencher os locais abertos. Não havia tomado o costumeiro café, não havia ingerido doces, senti-se sonolenta e muito desperta em meio a uma atmosfera onírica.

domingo, 2 de outubro de 2011

Holometábolo

Deu-se a metamorfose, não tal como a de Kafka, de forma alguma, não tinha a menor semelhança com espécie nenhuma de coleóptero. Todos comentavam sobre sua mudança, ela o contemplava também, entretanto demorou a se convencer, de fato, que não era mais a mesma.

 Sentia que poderia ir mais longe, empolgo-se e caiu, resolveu ir com calma e adaptar-se a essa nova condição de ser alado. As formas eram outras, seu modo de vê-las também. O sorriso que povoava seu rosto era mais constante e mais firme, não mais apoiado nas muletas do surrealismo. Agora tudo parecia mais sólido, palpável, tudo parecia ter mais forma.

Mas o surrealismo também esteve lá, onde as vontades se transformam em verdades tão logo são concebidas já se encaminham para o plano do real. Era tudo uma questão de tempo até sentir-se ambientada a sua nova situação. Tudo sempre foi questão de tempo: Torna-te quem tu és.

domingo, 18 de setembro de 2011

O Reencontro

Ela reencontrou seu passado, conversaram por algum tempo. Nem muito, nem pouco, o suficiente. Ele lhe mostrou aquilo tudo que ela havia esquecido, mostrou-lhe seu verdadeiro reflexo. A fez parar de acreditar em suas próprias mentiras, trouxe a tona tudo que ela já sabia.

Ela não lhe disse uma palavra, deixou que ele contasse as novidades de sua vida, a vida dela. Ele lhe contou tudo que estava passando na vida desta, seus desejos, suas vontades, seus sentimentos... Relatando a vida dela com mais precisão do que ela mesma, ele via de fora, de dentro para fora, via através de tudo.

Ele era um velho conhecido, falava com um sábio, falava como quem tem uma longa trajetória, como quem vem de longe para mostrar o que não se quer enxergar. Contou os pequenos segredos escondidos em meias palavras... E assim partiu, transformando tudo para como na verdade é. 

Torna-te quem tu és

domingo, 11 de setembro de 2011

A Alpinista

Há seis anos na beira do abismo,
Há seis anos pendurada por um fio,
Finalmente:
a
Q
U
E
D
A

. Ao rolar pelo precipício, muitas coisas ela trouxe para baixo consigo.

Já havia sido alertada por outro alpinista dos perigos; este conhecia a prática, diferentemente desta que sabia muito, mas apenas da teoria, da observação, de anos de estudo... Os quais caíram por terra ao lado dela.

Ela havia se voluntariado a queda, era a única forma de tentar escapar, de sair daquela situação... Era arriscado, mas caso ocorresse tudo como ela desejava, conseguiria subir e finalmente chegar ao topo, finalmente poder descansar... Poder, enfim, admirar sua conquista, a bela paisagem, passar a noite lá em cima, ver as estrelas e voltar para casa com uma alegria que em si mesma não caberia.

Mas infelizmente, sua busca desesperada por uma forma de sair daquele impasse foi errada, e lá está ela a descer o morro, levando consigo pedras e terra, tentando inutilmente se agarrar na vegetação, levando esta consigo, para fim do abismo.

Sentiu então sua pele dilacerar com as pequenas pedras em sua pele cravar, sentiu o atrito, sentiu a ardência. Não tentou mais escapar, achou melhor aceitar. Por muito tempo havia pensando no que fazer; agora não a restava mais nada senão sentir a queda. Buscou então alguma volúpia masoquista recordando-se de uma frase contida em um dos romances do sábio Goethe “Não há alegria sem dor, dor sem delícia”.

Só lhe restava esperar a queda acabar, reunir suas coisas e partir. Ir para casa desinfectar suas feridas, verificar o que foi quebrado, tirar toda a terra de si... Borrifar álcool 70° com um sorriso sarcástico e aguardar a cicatrização, enquanto isso: aproveitar. Verificar que de fato há sangue em seus vasos, verificar que de fato continuar viva. Aguardar o retorno, contar para os amigos. Mostrar as cicatrizes e ouvir a velha pergunta “Mas valeu a pena?”. Não encontrar resposta, não há resposta, não nem o sim, nem o não estão corretos, não há certo ou errado.

Por fim, brindar o fracasso com uma água tônica e sentir o sabor da vida.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Anamnese

Ela adentrou o consultório com um medo quase infantil, roupas adolescentes, um jeito desalinhado, cabelo despenteado e olhar indiferente.
Sentou no divã como quem senta na cadeira do dentista, sem dirigir nenhuma palavra ao analista...
(Psicólogo, psicanalista, psiquiatra... Nem ela mais sabia; poderia até ter recorrido, por engano, a um neurologista ou neurocientista...)
Sentou-se de modo sem jeito e seco; sentindo-se como uma mulher em sua visita rotineira ao ginecologista... Sentia-se tanto ou mais exposta que em tal circunstância.

domingo, 21 de agosto de 2011

Domingo

Dia cinza, frio, chuvoso, sonolento,
Típico domingo, 
Conversas que não se desenvolvem, 
Tão logo são abortadas espontaneamente.

Janela embaçada escondendo nossa própria solidão,
Escorrendo como o tempo.

Nosso tédio interior e falta de vontade de mudar,
A falta de ter uma opção para telefonar 
E com ele dividir um vinho ou um capuchino. 

Nosso e, ao mesmo tempo, apenas meu.

As pessoas bem vestidas passeando sob o forte vento
Tentando esconder atrás de tanta roupa e maquiagem
O seu eu devastado e sonolento.

Vão ao shopping preencher-se com futilidades,
Ou assumem sua condição e
Dormem ignorando a existência
Assumindo suas fraquezas.

Dividimos as mesmas concepções,
Mas não mais o mesmo recinto.

A umidade diluindo a essência; 
Deixando-nos aguados... 
Nada inesperado.
Mais um dia sem novidades, 

mais um dia almoçando as três da tarde.

Cair da noite

E então
A depressão instantânea
Véspera de segunda-feira,
Onde a solidão torna mais reclusa,
Escondida dentro de cada ser,
Que diz bom dia.

domingo, 7 de agosto de 2011

A Epístola

Deu-me vontade de enviar-lhe esta epístola
Para que ela esteja aonde não pude estar,
Para que ela seja tocada e sentida por ti,
Para que ela se misture as suas coisas
E seja guardada em um canto obscuro,
Mas não perdida,
Para que ela leve uma parte de mim...
E esta, esteja contigo.

Tentando que esta leve tudo que eu sinto,
Faça-me esquecer tudo isso,
Que me perturba noite e dia.

Para que essa parte de mim,
Seja, dentro da gaveta, esquecida.

Seja reencontrada em alguma limpeza
E dela surja apenas um sorriso,
Como quem acha algo há muito tempo guardado,
E se lembra de um tempo que não volta mais.

Que fique ela junto aos teus livros,
Junto com a inspiração dos mortos,
Que em mim tu tornaste viva.

Entretanto, está carta não tem endereço,
Seu destinatário será apenas algum canto na minha gaveta:
Um lembrete para parar de agir como uma idiota.

Poderia apagar-te de todas as lembraças
Todos aqueles pequenos detalhes,
Os quais insistem em debochar de minha atual situação.

Mas de nada adiantaria,
Minha própria mente iria continuar
A sabotar-me diariamente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Viagem

Faz tempo que ele se foi... As coisas mudaram tanto, entretanto, ao mesmo tempo parece que toda a minha vida continua a habitar de forma cíclica aquele mesmo dia, aqueles mesmo minutos de eternidade até hoje.  A questão de como tudo seria hoje se eu não tivesse o deixado ir, faz-me sentir como se ele continuasse aqui.  Queria falar com ele, na verdade já havíamos conversado sobre isso tantas e tantas vezes... A questão é que desde que ele foi embora vivemos nossas vidas como se aquilo jamais tivesse acontecido, exceto eu.

A maioria das coisas se apresenta apenas uma única vez, a pressão para tal acaba por fazer parte da escolha, dependendo da personalidade de quem decide. A oportunidade de acontecer algo se apresenta e se despende, e por mais que pense a respeito, nunca saberemos ao certo o que teria sido melhor. Aceitamos o presente então de forma consoladora e passamos a fingir acreditar que realmente era para ter sido assim. Aceitamos o presente e agradecemos com um sorriso mais forçado do que o de costume, agradecendo sempre simplesmente pela data não ter passado em branco.

Às vezes um não é mais tranqüilizante do que a angustia de não saber, as duvidas sempre trouxeram muito progresso, mas pelo fato de elas serem de fato incômodas... Então tentamos entender tudo, porém, nem tudo cabe a nós entender, nem tudo nos é aceito ou compreendido, comigo geralmente apenas um desde. Comigo sempre o conflito eterno do lobo frontal com o sistema límbico, onde sempre haverá um perdedor que jamais esquecerá sua derrota.

 Conversamos a respeito, conversei mesmo já sabendo a resposta, resposta puramente racional, as perguntas puramente emocionais. Mas ao final, um quase empate, nenhum deles ficou extremamente frustrado, ambos gostaram de alguma parte da conversa, apesar do saldo negativo ao menos a dúvida e a ansiedade foram sumindo, juntamente com a chuva e a louca vontade de correr pelas ruas sentindo-a sob meu corpo e inundando minha alma, até a exaustão, a fadiga muscular, a dor, mas, ao mesmo tempo, toda endorfina, por fim o dormir no asfalto e o acordar com pneumonia e dor nos ossos e articulações.


No fim nada mais que memórias e algumas poucas certezas.
Afinal é a memória que torna viva muitas coisas que sem ela não existiram mais.

Estado de espirito: tal e qual uma obra de Edward Hopper.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ode a Curitiba

Acordei com um pombo batendo contra minha janela, exatamente 3 minutos antes do meu celular despertar... Para minha sorte já havia sido alertada para este fato dias atrás quando uma delas quase adentrou meu quarto, caso contrário, poderia ter sido bem pior... Umas das coisas que não gosto nas cidades grandes são as pombas, aqui elas que vem me acordar ao invés dos pássaros das cidades pequenas.

Amo essa cidade, mesmo não sendo minha, já que não nasci aqui, mas sinto que ela pertenço sendo está interiorizada em meu ser mais que qualquer outra...  Mesmo não tendo lembranças distantes e ser uma pessoa nostálgica, isso não a diminui em nada meu sentimento. As cidades em que passei períodos mais distantes ou nunca mais vi ou mudaram muito... Não sou daqui, mas sinto como se tivesse nascido, crescido e morrido nesta terra... Logo comigo que era tão Catarinense... Lá costumo me encontrar perdida, sem referências. Me encantei por este lugar desde a primeira vez que o vi e no fundo já sabia que viria para ficar.
Amo o centro, Centro Histórico com toda aquela nostalgia pulsante, transportando para um período há muito esquecido, O Paço da Liberdade com seu café Cult e incrementado, o Largo da Ordem e suas ébrias lembranças, o andar cambaleante pelas pedras irregulares do antigo calçamento... A Riachuelo com seu cheiro tão peculiar de móveis antigos... Aquele cheiro de madeira crua transporta-me para um passado que nem eu mesma conheço... A Praça Santos Andrade: Minha vista de todas as manhãs, UFPR prédio histórico... Quanta inspiração... Somada ao sonho de um dia, quem sabe, fazer parte daquilo... E agora fazer...

Logo mais para frente à Reitoria... Oh, quantas vezes me derrubastes, me carregastes para um mundo paralelo, me destes a sensação de um amor mal resolvido que iria insistir por anos em invadir meus pensamentos... Todas aquelas pessoas tão estranhas para os outros, tão semelhantes para mim... O ogrobol... O DCE com suas paredes forradas de tantas coisas, tantos pensamentos, tantas ideologias, uma frase de Leminski... Assim como vejo vez que outra na parte da Arquitetura do Politécnico... Politécnico seus gramados tão desejados, o cheiro da grama quando recém-cortada, o cheiro de mato tão raro, tão ressaltante, tão apaixonante... 

Os lugares turísticos os quais para mim sempre terão o mesmo encanto desde a primeira vez que os vi, o modo de vida peculiar da cidade, tão semelhante ao meu, tão rude, reservado,  seus hábitos típicos, seus inverno rigoroso acompanhado de um quentão da Praça Osório se torna algo bem-vindo. Essa cidade exala um cheiro de cultura. Tão próprio... Aqui posso discutir Literatura, Filosofia, Sociologia que as pessoas costumam ler, costumam ir ao teatro, costumam não me achar um aliem como na minha cidade pequena, provinciana, tomada por pescadores onde ao citar Nietszche as pessoas ou se benziam ou desejavam saúde...

 Adoro ir na XV e ver o povo... Sempre tão peculiar... As figuras ilustres como o Oil Man, na faculdade ainda tem o Dance Boy... Todos de algum modo ligados ao estudo da vida... Sinto que tenho a possibilidade de me tornar um personagem semelhante, caso eu acabe não resistindo e ficando passando a linha da loucura considerada normal...

Sinto-me em casa, nesta cidade, mesmo não tendo nenhum parente por perto a grande maioria dos meus amigos são daqui, os quais todos nasceram, cresceram aqui estão, daqui reclamam, mas também partilham tão intenso sentimento. Sair e ir para o Largo é sempre tão bom, mesmo que seja para ir ao mesmo bar, ouvir a mesma banda, com os mesmos amigos, na verdade é assim que eu gosto mais. Dia desses resolvi sair em Balneário Camboriú... Fui ruim como sempre é... Lembro-me de ter gostado apenas em duas ocasiões, geralmente acontecem coisas ruins... Mas isso é outra história, vou indo, pois já falei demais por hoje.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Geada e Neblina

“Você tem que mudá o finar da minha história” dizia a voz dentro dela. Acordará de forma nebulosa, dia com cerração baixa, daqueles dias os quais é difícil acreditar na sabedoria popular “cerração baixa, sol que racha” na verdade... Pensando bem... Isso nem rima. A neblina encobria a cidade, parecia que noite, mas era o inicio do dia, que pelo visto nem teria começado. Pensará ela então o porquê dessa frase em sua cabeça, a frase do filme dublado, aquela dublagem tão engraçada e patética, que faz esse suspense se transformar em comédia, tal qual sua vida a qual também vinha sofrendo com tal metamorfose.

Acorda, prepara o café, liga a TV, descobriu quanto estava valendo o quilo da soja, descobre a cotação do dólar, coisas tão longe da vida dela, mas ao mesmo tempo tão presentes. Acordará mais cedo, para aproveitar melhor o dia. Tomara café, sentará e observara o movimento, a bela vista histórica de seu apartamento, tão velho quanto. Observava as pessoas a andarem rapidamente todas encasacadas, o relógio marcando -2ºC, e ela acordada, em frente à janela “suada” nada por fazer, quis acordar mais cedo apenas para ter mais tempo para não fazer nada.

 Lembrou da voz daquele carinha nerd a lhe dizer que o tempo ocioso é tempo desperdiçado, pobre garoto esperto, dito tão inteligente, mas com tanto para aprender... Para ela esse era o único tempo realmente vivido, dedicado única e exclusivamente a viver, voltando à atenção para o mundo que o cerca...  Para seu verdadeiro ser e não para se sustentar, ser forçado a aprender, nunca deixamos de aprender, só tornamos o aprendizado chato, cansativo e pragmático, menos filosófico e mais objetivo, o deixamos desnudo e gélido para então devorarmos. É isso que as escolas fazem, sempre fizeram. Gostava muito de aprender, mas de maneira descompromissada, de maneira romântica em baixo de uma arvore, no tapete da sala, não em cima de uma mesa, com uma cadeira dura e fria em um lugar tão bem iluminado. 

domingo, 26 de junho de 2011

A Tranquilidade do Mar

“Parece-me que ao me debruçar sobre o passado posso tocá-lo, mera ilusão lendária para fazer-me morrer afogada ao ver meu reflexo deturpado.”

Voltei, voltei para passar alguns dias. Relembrar o tédio adolescente... Esconder-me novamente... Dentro do meu quarto com meus amigos póstumos, esconder-me de toda humanidade, de todo o frio do lado de fora.

Voltei aos velhos dias e entendi porque sinto que o tempo tem passado tão rápido. Aqui ele congela, se esvai lentamente, as horas daqui são como dias de lá. Após a maioridade não os  vi passar, mas isso não deve ao fato de ter crescido, mas sim por ter me mudado. O tédio me consome como as batidas da onda do mar hipnotizam. Não sei como consegui viver tanto tempo aqui... Tanto tempo, tanto tédio, sem desenvolver nenhum tipo de adição ou doença psíquica. Somente desenvolvi meu afastamento social e fortaleci minhas amizades com esse povo que já partiu desta há muitos e muitos anos.

Agora é o momento que me perguntas por que então não volto para meu quarto, revejo as velhas amizades e paro de reclamar?! Estou de férias, de fato não quero me ocupar. Minha mente pelo menos não. Gostaria de ocupar-me sem grandes afazeres intelectuais.

Meus amigos se mudaram, alguns até já casaram e pensava eu que as pessoas não faziam mais isso... Outros já me esqueceram, de alguns eu mesma custo a lembrar, a maior parte, meros conhecidos com alguns trechos na minha vida, muitos com um espaço grande lá dentro. Nenhum aqui nem agora.

 Acho que vou voltar lá jogar bisca com meu avô, tomar um chimarrão,  ver sua nova velha invenção, ouvi-lo exaltar as belezas da natureza; ouvir as lembranças hipocondríacas da minha avó, seus comentários de como estou magra, o seu oferecer de pão, cuca, bolacha, chá, suas histórias e suas nostalgias, diferentes das minhas. Pois é isso também disso que eu sinto falta e faze-me sentir em casa. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Coisas que só acontecem comigo, parte 6

Sabe o que é estar na hora certa no local certo? Bem... Ás vezes é mais ou menos assim...

Antes disso... Não, você não postei a parte de 1 a 5 no blog, mas não quer dizer que não aconteceram, é que apenas essa resolvi relatar. Irei mais uma vez quebrar um pouco com o estilo e com o padrão deste blog, não abordando mais memórias ou nostalgia, mas sim algo que me aconteceu hoje, abandonando um pouco a narrativa descritiva e partindo para uma crônica de mais um dia.

Tudo certo para a viagem, férias, férias, férias, mal poderia esperar. Tudo planejado, sair as 11:21hs da prova para da tempo de pegar o ônibus, passar em casa, passar no Subway pegar um sanduiche e correr para pegar o ônibus das 13:15 hs. Quase perdi o horário do ônibus, sai 11:24 hs da aula, se perdesse esse ônibus não chegaria a tempo de pegar a mala, pegar o lanche e ir para a rodoviária. E qualquer menor deslize era o fim. Um pequeno atraso atrasaria outra coisa e tudo cairia por terra, tal e qual um daqueles dominós. Porque pegar esse ônibus tão cedo então? Evitar congestionamento. Além de férias é feriadão...
Pois bem, após alguns percalços e muita correria enfim cheguei, sentei no ônibus, estava já abrindo meu Kafka quando sou interrompida por uma senhora: “a poltrona 23 é minha” olho sua passagem, ela olha a minha... Sua passagem é só para dia 29, hoje é 22. Game over. Toda a estratégia foi perdida.

“Ô moço, comprei essa passagem aqui, mas comprei pela internet, vi errado o dia, sabe como é, muita “tecnoloxia, nene” a “xente” não tá “acustumatu””. Não, não falei nem assim, mas foi como me vi, uma senhora de seus 65 anos que viveu muito tempo na colônia tentando se modernizar.

Passagem agora para esse destino apenas as 23:30hs, senhora.Comprei então para a cidade vizinha.

Ao ir embora vejo uma guria que tentar retirar sua passagem para o mesmo destino que o meu “o ônibus acabou de sair”, agora só 23:30....

Poderia ter ido naquele... É... Estava na hora certa, no local certo, na semana errada.

domingo, 12 de junho de 2011

Ode a quem nunca mais vi passar

Nostalgia de andar sozinha pelas ruas, fim de tarde, fim de semana, domingo entediante, olhar para o meu caminhar, a sucessão de passos, all star furado, desbotado, a sucessão de poucas pessoas na rua, o passar do tempo esperando encontrá-lo...  Nada com ele marcado... Cidade pequena... Um único caminho, pelo domingo, ele haveria de passar. Coincidência fácil de forjar. Saudade desses encontros tão falsamente inesperados, saudades daquele sorriso tão amplamente sincero o qual estancava os esfolados adolescentes das minhas pernas finas cobertas por meias coloridas. Sorriso contagiante que mudava a cor da penumbra do anoitecer de um dia tão cinza. Os anos voaram como o tempo que levei para encontrá-lo ao dobrar aquela esquina.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Soar da Campainha

Ela estava em casa, entediada quando escuta-a soar, escuta, uma, duas, três vezes... Sempre quem costuma tocar é uma amiga da sua companhia de despesas... Mas desta vez ela não está, logo não sabe bem o que fazer...  Se fosse na sua antiga casa, sabendo que a pessoa procurava por sua mãe e esta não se encontrava, apenas se fingiria de morta e continuaria esticada no quarto sem movimentar nenhum músculo estriado, apenas o cardíaco e aqueles necessários para a respiração. 

 Mas desta vez, na esperança de algo afastar seu tédio resolve atender: quem sabe alguma visita inesperada para retirar esse vazio da alma, para gastar essa energia que de tão acumulada se tornou inerte?! Seus amigos faziam meses que não a vinham ver, quem sabe alguém resolveu testar se ela ainda compartilhava esta sala de espera chamada Existência...

Mas tal atitude não era muito do feitio destes. E ela muitas vezes na solidão da antiga casa se deparava com o pensamento de uma morte sorrateira, com as vizinhas reclamando do fedor de putrefação, e sendo este o único indicativo de sua morte, além, é claro da falta do pagamento do aluguel. A vigilância sanitária sendo chamada, nada podendo fazer, a ordem de despejo... Todos os tramites legais, a porta arrombada enfim. A notícia no elevador do prédio, no jornal sensacionalista da cidade, aqueles em que se aperta e sai sangue... A violação de sua privacidade póstuma... Privacidade aquela tão bem mantida que lhe custou o esquecimento, de tudo e de todos. A notícia de sua morte utilizada então por um cachorro em algum canto da cidade ou viajando ao embalar alguma coisa mais frágil do que ela... Noticia descartável. A rede de informações a passar, fofocas, redes sociais... Até atingir alguém  que costumava conhecê-la, e então o franzir da testa, o sobrecenho enigmático, como se isto auxiliasse as sinapses... E enfim a recordação “Ah, acho que me sei quem foi esta... Ela era meio estranha, sempre andava rápido, as pessoas faziam piada dizendo que ela corria como o Naruto... Mas nunca vi ninguém falar diretamente com ela... Creio que fosse um tanto quanto anti-social, sempre estava no seu mundo com fones de ouvido ou com um livro do Dostoiévski... Morreu jovem, apesar de ter a alma de uma velha... Pobre criança.” Béééé! A campainha lhe trás de volta a superfície do mar gelado de seus devaneios.

A capainha tocava pela última vez, ela vai até lá, correndo, como se quisesse evitar aquele pesadelo imaginativo. Ela abre a porta e busca ver quem estaria lá como testemunha de sua existência. O ímpeto é dilacerado, mais uma vez, não era para ela. Era o filho mais novo da senhorinha que mora ao lado.
Pensa neste instante que a vida até pode ter seu sentido, mas não para ela. Quem sabe algum dia seja para ela. Dia no qual provavelmente alguém tocará na sua porta, provavelmente algum levando a palavra de D... Digo, da igreja a qual ela pertence. Ela e senhora D, derrelição... Mais uma coisa em comum, e ela volta a recortar seus peixes de papel pardo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

1/2 Pela Metade

Cidade vazia, fim de feriado, volta a rotina... Tédio, angústia, agonia... Solidão sem nem ao menos uma garrafa de vinho. Assim seguia eu ao ouvir os meus passos, coisa rara, efeito da redução do número de carros, onde quase consegue escutar os poucos pássaros... Quarta-feira de cinzas, cinza como o céu da cidade, um meio feriado, meias alegrias, movimento pela metade, um vazio desnecessário e sem sentido; eu a desviar do meu próprio caminho, marcando desencontros com desconhecidos. Muito por fazer, mas a vontade por insiste em se perder, flutua sob este céu poluído e frio, se esconde na noite vermelha da cidade, onde o progresso apaga as estrelas, camufla o abismo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esvaindo-se

Ela fingia que lia o livro, mas na verdade pensamentos não a deixavam levantar vôo por aquela história. Ficava lá pensando naqueles dias não tão distantes... Ficava a reeler a mesma página com uma teimosia distraída.

O que seria aquela ficção perante a persistência daquelas memórias tão surreais quanto os quadros de Dalí. Aquele quadro surgira da espera...  Assim como a dela, que fingia ler enquanto ficava ali, tentando esconder atrás daquele livro, a ansiedade em vê-lo.

 A quem ela queria enganar?! O tédio escorria por entre aquela mesma página, a preguiça se apodera daquele corpo, envolvendo-a, formando uma áurea transparente. Que some de forma fulminante com o soar da campainha. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Passar dos Dias

Meu relógio biológico anda desregulado, mas não pela vida agitada, mesmo porque minha ansiedade tem diminuído... O tédio desregula meu sono...

Dormir é o que faz passar os dias, logo a noite não tem do que se ocupar, isso se dá pelo forte calor que ninguém consegue aguentar. Lá fora o sol que bate na cabeça produz cefaléia, o asfalto auxilia a manter a temperatura que representa ser o prenuncio do inferno em que se tornará a terra. Com essa rotina sem objetivo espero o passar dos dias, o passar do calor, o passar do frio, o dia perfeito para algo ser feito. Pena que este dia costuma tardar, a eternidade.

Mas vós, meus caros, nenhum de nós temos todo esse tempo, somos todos matéria orgânica, prestes a ser decomposta, prestes a fazer parte da entropia do universo, prestes a seguir as leis da termodinâmica.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Visita

A inspiração voltou como quem vem de longe... Como a brisa marinha trazida ao alto da montanha por uma chuva torrencial que vem lavando tudo... Com ela muitos detritos esquecidos. Veio sem perguntar se poderia, veio com muita bagagem, e eu, na condição de hospede, tendo que recolher as malas... Curiosidade mórbida pelos velhos presentes que estariam lá...

A visita era quase tão velha quanto eu, seu nome: Nostalgia, na sua áurea: medo e alegria. Sentimentos opostos que contrastam e tecem esse tapete de retalhos que eu escondia bem lá no fundo da casa, perto da lavanderia.

Esconder é ocupação antiga... Quando criança aonde tinha uma gaveta na qual escondia tudo que minha mãe falava que deveria ser guardado. Mas esconder não funciona por muito tempo... Um dia a gaveta ficou muito pesada, perdeu seu elo com aquela espécie de trilho onde deslizava e nunca mais se abriu. A força da criança era insuficiente.

Gavetas tais como as de Dalí que só a psicanálise poderia abrir? Quem sabe? Sei que já não ando mais tão à toa quanto aquela época, sei que já não absorvo mais tudo tão facilmente...

Passada a infância e adolescência... Agora quero saber a procedência de tudo: a fonte da afirmação, a safra do Cabernet Sauvignon, o qual na época não existia na minha vida, tomava em vez deste um vinho barato... Daqueles denominados tinto suave, ou seja, vinho seco com açúcar a qual maximiza seu enjôo na ressaca.

Ressaca na praia naquela onde pensei que as ondas teriam levado consigo os pedaços daqueles momentos com o vai e vem das ondas, assim como moem as conchas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Branco Amarelado

Mais um fim de ano, mas uma vez a mesma coisa. Os mesmo desejos, as mesmas promessas para a lista que logo será esquecida, as mesmas pessoas, a mesma vidinha. Fim de ano, mais um ano, um novo começo? Apenas mera continuação?! Praia, fogos, musica ruim, bêbados, garrafas de sidra barata ou espumante pela areia, depressão... Por que não? Todos ébrios, querendo festa e eu no meu quanto sóbria vendo a decadência humana. Mais um ano? Na verdade um ano a menos, a idade se acumulando, os anos passando... Qual o motivo de tanta festa? Observava a decadência musical também, a cada ano um novo hit tão previsível e insuportável quanto os demais.

O branco da tradição? Até ele anda meio desbotado... Não há mais o contraste do povo de branco e os poucos descrentes de preto. A coisa anda colorida demais... Mas melhor nem falar sobre colorido nesse fim de ano... Piadinhas a parte, o amarelo, rosa, vermelho em alta... Dinheiro, amor, paixão... Meu olhar para o futuro não é muito otimista, basta olhar para todas as catástrofes ambientais que aumentam a cada ano para acreditar na profecia maia. Mas talvez no fundo tudo isso se deva por um egocentrismo que não se deixa realizar, festa em todo o país que não me deixam fazer a minha me particular, quem recém fica sabendo e mal me conhece diz “ah que bacana” “não é não”, no meu dia amigos estão longe, conhecidos nunca lembram...

Pessoa: - “Feliz ano novo”
Eu: - “Só isso”
Pessoa: - “Não... muita saúde, paz prosperidade”
Eu: “ ¬¬”

Mas sabedoria que se acumula é o melhor presente, melhor do que falsas felicitações. Agora a velhice já não me assusta tanto... Vou aprender a jogar gamão, montar um moto clube... Hahaha

As reclamações são mais para não perder o costume mesmo, os dois últimos anos foram ótimas, muitas mudanças inicio do ano passado, neste ano foi mais um aperfeiçoamento. E creio que este que está por vir é uma continuação e uma melhor organização da minha vida, se continuar tudo como está na minha vida, está ótimo.

Só que a nossa volta sempre o desejo de mudar, não ao conformismo, jamais.
Bom 2011 a todos. Que seja um ano mais sustentável, menos conformista, com mais informação bem aplicada. E realizações pessoais para todos também. E ficamos por aqui com aquela piada do tio do churrasco... até ano que vem ¬¬' hahahaha

domingo, 12 de dezembro de 2010

Destroços

Fui até lá, mas tudo já tinha acabado, só havia uns poucos perdidos, ébrios ou drogados. Fui até lá, sentei e esperei, esperei pelo temporal que se aproximava, mas nem ele quis me ver. Andei um pouco por aquelas ruas antigas, alguns pingos pegaram em mim, tentei achar alguém, tentei achar alguma inspiração, mas nada havia além de mim mesma e essa convivência turbulenta entre nós.

Talvez essa convivência seja turbulenta há algum tempo, mas não tenha percebido. Há tão pouco tempo para ficarmos sós. Sempre com um milhão de coisas para fazer, sempre querendo fazer tanta coisa e não conseguindo, sempre querendo dar atenção para tantas pessoas e acabei esquecendo... Sempre que fico meio a toa sinto que tem algo errado, talvez pelo costume de sempre estar tudo errado, de sempre estar correndo sem saber direito para onde. Sendo sempre “aquela garota que anda rápido e por isso passa e não me vê”.

Há tão pouco tempo que o tempo que eu tenho e tento agarrar se esvai por entre os dedos e cai pelo bueiro, eu tento lamentar, mas quando vejo as preocupações já são outras. Mais um dia a toa. Mas logo só sobrarão as poças de lama dessa tempestade.

Ps.: Ao tentar postar esse texto tentei logar com meu e-mail pessoal e depois com o da faculdade, where’s my mind?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Brinde

Á paixão levanto essa taça de vinho tinto. Ah paixão... Paixão inconstante tal quais as chuvas apocalípticas de verão, as quais tanto me agradam com seu odor límpido característico de terra molhada, com seus ventos sem destinos, com seu prenuncio de duração eterna, com seu fim inesperado, com duração indeterminada.

Dia desses ao sair feliz de casa encontrei um garoto no elevador, aquele que estava prestes a descobrir as maravilhas da adolescência... Estava arrumado e usava um perfume característico, como o de alguém que custei a descobrir, ele conferia os detalhes no espelho do elevador e eu pensava em quem seria a merecedora destes detalhes de alguém que parece sair para seu primeiro encontro, fiquei feliz ao perceber que coisas como essa não mudam com o tempo. Então a felicidade boba se apoderou de meu ser.

Lembrei-me da ultima vez que vi essa ao andar pelas ruas do centro, os prédios históricos e o cheiro de cultura sempre pairando pelo ar me fazem bem nessa cidade... Mas o motivo daquele dia era diferente. Lembrava de um carinho escancarado no qual nos dias de hoje só provem de casais, tratava-se de casal, mas de amigos quase irmãos, nada, além disso, amizade casta e intocável desacreditada por toda a sociedade. Abraçar as pessoas hoje em dia sinal do ser ébrio se apoderando do ser racional, abraçar as pessoas às vezes é realmente culpa da bebida, outras vezes a bebida que é desculpa para abraçar as pessoas sem se preocupar com os pré-julgamentos.


Hoje naquela profunda vivencia com seus entrelaces, com seus contrates tão bem definidos estava eu em minha longa viagem perto demais que alcançava e compreendia tudo. Minha paixão ao todo esparramada encontrava-se focalizada então naquilo que mais estimava, não mais em figuras inexistentes que eu transportei tantas vezes para atores reais. Agora tudo estava em seu lugar, e eu perdida no meio do macio.

domingo, 24 de outubro de 2010

Novos Velhos Conceitos

Eles todos queria se transportar para o passado. Eu queria voltar para a adolescência para quando era a eles semelhante. A noite se iniciou com uma nostalgia de doer a alma e uma tristeza a qual insiste sofrer. No meio daquela maré embriagada de felicidade há um pequeno ponto mais gelado. O ponto mais gelado ocasiona um choque térmico no sistema, a energia cinética a se movimentar... Os átomos a mostrar toda a sua força dentro de seu ser tão pequeno e insignificante.

O copo de vidro frio trinca por dentro dele ser entornada água fervente. Mas ela insiste em desafiar a natureza selvagem e se jogar dentro daquele mar revolto, quente em meio a uma tempestade elétrica. Assim que ela coloca o primeiro pé o mar se acalma, pois ao fazer parte dele percebe que toda aquela energia é mal canalizada. Ela não estabiliza a energia e também não quer ser um mero condutor elétrico onde se prega que se deve conduzir por conduzir sem amor, mas para um objetivo maior de pregar o a forma livre do que não deveria ser conduzido.

Um mar de pura contradição, onde idéias revolucionárias e machistas formam um híbrido nem um pouco comum, pois os homens que lá estavam queriam parecer por fora maiores do que por dentro, com isso se enchiam de ar e hipocrisia. As interações fracas se criavam... Mal sabiam eles que essas podem ser alteradas facilmente. A estrutura fraca assim construída se desmonta por desnaturação a menor alteração do calor.

Seriam esponjas que se enchem de nada para se tornar maior ou palha de aço que enche tudo de ferrugem, servem apenas para causar atrito, mero condutor elétrico que sem força de outrem não tem a menor utilidade?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O cumprimento

Eu estava entretida a tirar suas coisas do escaninho, o armário escolar da biblioteca. Uma pessoa feliz me cutuca, olho para trás e acha que a pessoa havia lhe confundido de costas, como é de costume. Volta-se novamente para frente. É novamente cutucada, dessa vez a garota saltitante lhe diz empolgada e feliz:

-Oi!

Não conhecia a garota e tão logo pensei “Vou ser educada, apesar de ela estar se enganando demais, quem ela acha que eu sou? Eu nunca vi essa pessoa antes na minha longa vida.”

-Oi...

-Já te cumprimentei milhões de vezes e você nunca responde – diz a garota com um sorriso de ponta a ponta.

- Deve ser porque eu não te conheço, pensei. Mas resolve responder com um simples: “Desculpa” e tirando as coisas do armário tento correr para longe daquela situação embaraçosa. Tento por vários minutos pensar em outro desfecho para aquela história, relembo todas as atitudes que poderia ter tomado.

Será que deveria ter admitido para ela que ela não me conhecia, mas se ela me conhecesse poderia ficar chateada, não poderia tirar aquele sorriso daquele rosto ainda infantil. Mas se eu mantivesse um diálogo talvez tivesse falado besteira... Talvez acabasse por entregar o segredo que minha testa reluzia. Ou quem sabe tendo a conversa iria personificar a loucura daquele ser que pensava me conhecer.

De qualquer forma seu rosto de minha mente já se apagou e eu talvez eu continue sem responder seus cumprimentos sinceros, apimentados com um pouco de informalidade a qual eu gostaria de saber de onde vem.

sábado, 4 de setembro de 2010

Brazilian Cheese Bread

Ela sentia falta daquele pão de queijo o qual sempre comia no recreio, quando tinha seus 7, 8 anos, tinha a opção com e sem orégano... Apesar de hoje em dia ela amar orégano, ela sempre pedia sem. Certa vez a nostalgia foi maior e ela resolveu voltar a cidade e procurar a padaria.

Quando ela finalmente chegou, percebeu que a fachada não era mais a mesma, ou talvez sua memória. Não tinha mais aquele estilo colonial, mas mesmo assim pediu o tal pão de queijo. Ficou com receio de pedir com orégano e não haver mais essa opção, passando por excêntrica para a mulher do balcão, além do mais, sempre que se pedia pão de queijo a pergunta lhe era automaticamente feita.

Ela ficou a salivar enquanto esperava... Parecia uma eternidade solúvel que ia se aproximando de sua boca. O pão de queijo chega, parecia-lhe igual, o sabor também, mas isso não a satisfez. Percebeu então que a falta que sentia não era do pão de queijo, e sim de ter 7, 8 anos.

domingo, 29 de agosto de 2010

Rosemary faz as malas

Vou-me embora... Para Pasárgada ainda não, é tarde demais, nos dias atuais encontraria apenas um sítio arqueológico, outra que alcalóides não me interessam, não utilizo nem a tão querida por todos: cafeína. Nem aprecio a maligna nicotina...

Mudar-me-ei para perto da praça, mas espero não rever aquela velhinha alimentando os pombos, até ai tudo bem se ela não pegasse a bengala e tentasse os acertar em quanto gargalhava com uma boca sem dentes...

Vou sair do cortiço que vivo: um prédio antigo típico da trilogia do apartamento de Polanski. Espero não mais acordar com a cama da vizinha de cima a ranger cada vez mais rapidamente até parar, esperar uma meia hora e retornar, outro vizinho diz que ela ganha para isso, o que não me interessa e preferia não saber. Não mais serei acordada pela vizinha de baixo que sabe o horário que chego e saio, a qual me acorda e irritada pede para eu fazer silencio. Não escutarei mais o vizinho imitando Fudêncio fazendo um discurso de ganhador do Oscar, nem sentirei do nada cheiro de maconha, ou alguém assobiando Guns.

Numa dessas acordei por volta das quatro horas da manhã de um dia útil com a voz e o choro de uma mulher desesperada a qual dizia: “Oh meu Deus, o que foi que eu fiz?”. Eu pensei “Minha nossa, ela matou o marido e se arrependeu”. Mas não, isso era apenas uma das muitas brigas que viriam dali para frente.

Aqui o pessoal é bem diversificado, tem gay, lésbica e travesti, tem estudante, filhinho de papai... Renderia tudo isso uma bela história desse prédio tão antigo, mas o que eu fiquei sabendo foi por mero acaso, por mim preferia não saber de nada disso, mas ai não teria essa história para contar. Acho que enfim poderei dormir em paz.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Encontro boêmio

Ela era loira, tinha o cabelo curto daqueles sob medida para poucas mulheres de coragem, um cabelo loiro com um corte fácil de arrumar. Estava sentada próximo à porta do bar, extremamente arrumada usando um vestido preto colado de um material reluzente, algo entre o vinil e o couro, de um gosto um tanto quanto sadomasoquista, ostentava um sapato de salto agulha o qual alongava ainda mais suas pernas.

Tudo isso me deixava com um insistente pensamento: O que estaria uma pessoa com toda essa elegância em um bar vagabundo onde se vende bebida batizada e só aparecem pessoas estranhas? Ela parecia estar no local errado, esperando pela pessoa errada. Demonstrava sua raiva contida ao olhar para a porta como um olhar superior, tal qual de uma juíza a dar um veredicto. Minha intenção era ir lá e puxar um assunto, mas o último cara que foi falar com ela saiu disfarçando a vergonha e as lágrimas.

Sinto então raiva de não saber desenhar, a qual vez que outra me aflige profundamente. Se soubesse reproduzir aquela imagem que observei a noite inteira teria uma obra prima. Fotografia também seria uma ótima forma de guardar o momento, e uma ótima forma de morrer também, discreta como só eu sou.

Quando o bar estava quase fechando fui embora sem saber o final daquela história da mulher que esperava sem ter horas, esperava incomunicável, sem celular, sem bolsa e nem mais nada. Que apenas esperava tomando um copo de água. Acho que no fundo ela tinha o mesmo perfil dos freqüentadores do bar, só eu que tanto olhei que não percebi.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Re-cycle

Estava a reviver tudo aquilo, o que eu quis por muito tempo, mas escolhi pela sanidade, pela razão. Mas em meu sonho eu corria para o abismo, para sentir aquele vento em minha face, para sentir aquela liberdade, aquele perigo encantador da descida. Jurei por muito tempo me afastar de tudo aquilo, mas lá estava eu de novo.

E o telefone toca, toca na mesma hora que todos os dias, não sei porque da insistência no mesmo horário que o resto da semana, nem tarde, nem cedo, mas na parte mais emocionante do sonho. Fico aliviada em acordar, mas a dona da casa não está, não tenho motivos para atender. Não quero mostrar meu mau humor matutino para o telemarketing.

Saio de casa e sonho me acompanha o dia inteiro, como se eu revivesse tudo aquilo que me afastei por tanto tempo e assim conseguir me libertar. Todo esforço parecia agora inútil, mas logo eu esqueço de tudo isso de novo.


Obs: O título desse texto tirei do nome de um filme, o qual parece meio tosco de inicio, mas que a história toma um rumo bem interessante. O que me chamou a atenção foi a capa surrealista dele. Em português o nome ficou com Assombração, provavelmente a pessoa que traduziu só viu a parte tosca do filme, mas lhes garanto que não tem nada a ver.
Fica como dica para essas férias chuvosas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Falecido marido

Que saudades sinto de meu falecido marido.
Sentir o frio do cobertor gelado, passar as noites ajunto ao travesseiro me traz nostalgias imensas.

As noites que costumavam ser acompanhadas de uma bela taça de vinho tinto, de declamações de poesias em torno da lareira no inverno, não mais existem, minhas noites se tornaram vazias e tristes. Ele se foi cedo, com seu corpo jovem e até então cheio de vida. Lembro-me como se fosse ontem... Em uma noite quente de verão ele nu a observar a luz dos carros à meia luz da rua... Seu corpo remetia-me a uma estátua grega... Seu corpo pálido e magro remetia-me aos romantistas e eu ficava a inventar poemas, os quais escondia por seu alto teor sexista. Lá estava ele a segurar seu cigarro, de forma impositiva, de um jeito meio junkie remetendo-me a vários homens sexys desse gênero... Não gostava do cheiro do cigarro, mas o jeito que ele o segurava era incrível.

Porem essa beleza auto-destrutiva o levou de mim para o Olimpo, pra nunca mais voltar.

Agora só restam saudades em minhas noites frias...
As vezes surpreendo-me enganando-me, com a ilusão de que ele fora apenas comprar cigarros e nunca mais voltou. Ás vezes sinto que ele forjou a morte apenas para me ludibriar, pois as vezes quando estou só a andar pela cidade sinto seu cheiro e não vejo ninguém por perto.

sábado, 12 de junho de 2010

Dia dos Namorados, ou não...

Essa histeria coletiva na qual muitos mergulham, essa carência coletiva, esse querer se estar com alguém para estar na moda, buscar um alguém que existe em sua mente, realizar um ideal romântico com alguém que não se manifesta, tornar alguém ator de seus delírios.

Às vezes uma chance a mais de receber um sim há muito tempo esperado, às vezes, a oportunidade de dar um sim a um sentimento a muito negado. Ás vezes uma simples devassidão, uma simples obrigação, um simples delírio personificado, um senso comum aplicado.
Hoje muitas pessoas pensaram muito e não fez nada.

Outras tentaram fazer e não conseguiram.
Outras apenas seguiram a moda.
Outras expressaram seu amor.
Outras tantas se afundaram no chocolate.
Eu apenas fiquei aqui a pensar e a viver.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mundo Mecânico (Admirável Laranja)

Em um futuro não muito diferente dos dias atuais a humanidade passa seus dias a promover seu intuito mor, seu maior objetivo, sua única crença, O SISTEMA. Mas um homem foge as regras.

Acostumado a acordar todos os dias e cuidar da sua plantação de milho, o homem isolado da sociedade, mas não das pessoas passa seus dias a filosofar sobre seus sonhos, a viagem de seu espírito por vidas passadas. Lá ele se encontra buscando evoluir tal como Platão, lá se encontra ele esperando pelo fim do ciclo, evoluindo e esperando um novo começo mais fácil e uma nova vida melhor. Conhecia ele através de suas viagem todas as sutilezas entre a vida e a morte, entre o céu e a terra, nunca jamais havia duvidado, então sua vida era plena e tranqüila. Não esperava pela morte e sim por um recomeço.

A sociedade da época desse “homem bucólico e arcaico” segundo julgamento da própria ia padronizando as pessoas, seguindo o que até então era visto como artimanha do inimigo vermelho. Essa sociedade aboliu assim como seus inimigos as crenças, mas passou a louvar Comte. Seus messias eram cientistas e seu altar mesas frias de mármore, seus santos uma série de tubos como aqueles de xarope de morango, mas que ao invés do desenho da fruta ostentam símbolos químicos e indicam grau de pureza e molaridade. A visão de religião desse povo é tida como algo provinciano e ultrapassado, como uma série de mitos sem sentido para aquilo que a ciência não conseguia explicar, uma visão como a nossa sociedade atual tem do paganismo grego. A polêmica da divulgação dos resultados de experimentos sob a vida após a morte já era página virada, o vaticano agora já havia sido derrubado depois de uma série de escândalos de corrupção e acusados com pena perpetua pelo pior dos crimes: Impedir o avanço da ciência.

Vizinha ao homem fora dos padrões vive então uma mulher de aproximadamente seus 50 anos, que passa a vida dedicando-se a ciência como trabalho e ao capitalismo como hobbie. Imersa em seus deveres de cidadã demorou a notar a existência de um homem que morava ao lado de sua imensa casa moderna, seu vizinho parecia lhe não saber aproveitar o espaço de sua residência, ao invés de sala de jogos, bar, espaço teen, cinema, playground, piscina ou quadra de tênis, o velho senhor tinha uma plantação de milho. Isso demorou a ser notado, pois envolve uma curiosa história sobre o dia que a mulher foi obrigada a ver através de seus altos muros, pois teve que andar a pé 10 m, a história desse evento absurdo contarei a vocês qualquer dia.

Saindo então de sua residência, a mulher percebe que seu vizinho não tem altos muros cercando sua morada, criando então um novo hobbie, vigiar o excêntrico proprietário, isso a fazia se sentir bem e gerava-lhe certa nostalgia, havia crescido assistindo aos ultrapassados programas de reality show 24hs por dia. Com isso acaba por ficar apavorada ao descobrir as crenças de seu vizinho e resolve ligar para a polícia investigativa. Pouco tempo depois o homem é levado e sua casa lacrada e implodida, dando lugar ao progresso de mais um condomínio fechado.


Continua...

Ou não...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pesadelos protéicos

Os assuntos da faculdade me perseguem no bar
Pesadelos protéicos invadem minhas noites
Vizinhos correm com a minha felicidade
O álcool não tem mais o mesmo efeito.
Ranger os dentes a noite vira rotina.
Psicólogo, psiquiatra, calmantes e florais.
O bar só serve para me deprimir mais,
Quase posso enxergar os problemas
No fundo da negra garrafa de vinho tinto.
Insônia.
O sonho se tornou pesadelo?
Jamais, é isso que me faz acordar feliz,
Isso já basta, mesmo que por vezes vá dormir
de orelha quente.
Aliás, a mochila rasgou, espero ser mais resistente que ela...

domingo, 21 de março de 2010

Mundo nas Costas (Atlas)

Hoje a mochila estava mais pesada,
Com ela artigos de primeira necessidade,
Nela instrumentos de minha insanidade
Que a cada dia desaparecem.

Mais um dia,
Mais um esquecimento,
Mais um tomento.
O peso aumenta.
Retiro coisas dela por perder,
Retiro coisas dela por querer,
Retiro coisas dela para devolver.

O vazio é maior que o material,
Contrariando a lógica,
É ele que faz pesar.

O peso se soma aos pesares,
Cada dia minha coluna se inclina
um pouco mais.
Já não levo mais preservativos,
garrafas de vodka ou vinho,
livros de histórias.

Levo o que levarei para a vida.
Com o tempo levarei de forma imaterial,
Mas enquanto isso
colocam-se mais e mais coisas...
Minha coluna é pressionada,
Meu cérebro não resiste.
Logo será o contrário?
Nunca se sabe...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Lá e em outro lugar

Procure o melhor gramado da cidade, onde os lagartos vão passear, com pinheiros e sombra, um oásis em meio ao deserto, ao calor infernal que faz até a alma suar, lá ele comigo está. O lugar se torna melhor a noite, sob um céu limpo, abaixo do infinito estrelar, o cheiro etílico causa arrepios. O cheiro do vinho emana no ar a se espalhar com o vento noturno em harmonia com o som das ondas de Netuno a nos observar.

Distante de tudo, perto do imenso, talvez eterno e cíclico universo, deitada na grama sinto ele me chamar, poderiam as leis da gravidade sugar-nos?! Cairmos par cima e flutuarmos juntos, soltos, leves e eternos perto do tudo, longe do nada...

Com ele voltei no tempo, consegui estar de volta em um dos nossos primeiros encontros com toda aquela incerteza excitante pairando no ar, toda aquela duvida, aquele suspense que faze com que o tempo pareça infinito. O que parece nunca voltar de repente esbarra comigo em uma esquina sem pedir desculpas e fica na minha mente.

Dias depois o mar nos aguardava, as ondas traziam um movimento leve e iam me puxando, mesmo com água apenas até a cintura eu ia sendo levada, no meio do oceano eu flutuo e continuo a sentir esse movimento fluido, vejo uma lancha a balançar e o pé de um homem que dormiu com a nostálgica coletânea do Creedence.

Lá estamos nós dois na grama do infinito com uma garrafa vazia de vinho.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Sons

Em meio a uma multidão de sons,
Onde nada se consegue escutar,
Ela estava parada com um olhar
aquele que busca alguém chamar.
Aquele olhar fixo para um conhecido,
o qual parece não notá-la.
A culpa é da multidão,
a qual atrapalha seus chamados
e pedidos de atenção.
Nesse mar de pessoas e solidão.
O único zumbido nítido é uma pré-adolescente,
- entediada como 11 em cada 10 deles –
ao esfregar seus chinelos no chão.
As linguagens se misturam, modificam-se
tornam-se dialetos desconhecidos e exóticos.
Como uma fenda que se abre,
E lhe transporta, para um país desconhecido.
Ninguém fala a sua língua.
Não há tempo, sentido ou espaço.
Apenas o delírio e deleite coletivo,
mudo e ensurdecedor.
Tudo se confunde no nada.
Em meio a bafurdia, eis que surge a inspiração.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Onirismo

Orgulhava-me de minha quitinete em Curitiba, ela tinha quatro piscinas diferentes e alguma grama, isso era a cobertura do prédio, de lá se tinha acesso a uma escada que nos leva a uma espécie de sótão todo de madeira escura, meio desbotada e marrom, telhado inclinado e uma enorme janela que permite uma claridade incrível. Ao abrir a porta eis a escada, e em suas paredes obras de arte – tal como no museu Oscar Niermeyer – subindo observa-se um único grande cômodo, meu quarto e minha casa, as cores me confundem, não me recordo se a escada teria uma parede vermelha ou se isso se daria no grande cômodo, mas de qualquer forma, o vermelho vivo contrasta com um azul um pouco mais vivo que o Royal.

O grande cômodo possuía uns puffes, um sofá com xadrez em tons escuros e uns riscos ocre, e um grande mural de metal com fotos minhas e da Isadora, as fotos se amontoavam, mal conseguia observá-las direito, além do mais, ao invés de imãs eram pressas por pregos. Comecei então a soltar as fotos, foi nesse momento que ela disse que me amava, conheço várias pessoas que dizem isso por qualquer coisa, mas aquilo já era demais.

Ela é namorada de um grande amigo meu, morria de um ciúme anormal por mim, até que naquele dia, meu amigo avisa que ela quer me conhecer. E eu, não sei porque, acho uma boa idéia apresentar minha casa a ela.

Começo a questioná-la sobre esse sentimento repentino, quando aparece um cara que nunca vi na vida, com uma guitarra e pergunta se alguém gostaria de ser sua vocalista, eu começo a reclamar com ele, pois logo o show iria começar e ele já deveria ter tudo pronto e blablablabla, ele sai pela sacada dos fundos deixando a guitarra preta e grandes fones de ouvido em qualquer canto. A namorada de meu amigo diz que tem que ir embora, depois de ficar surpresa com o sermão que dei no guitarrista. Eu lhe entrego uma flor preta de tecido como lembrança, é daquelas que se pendura em qualquer lugar.Ela agradece e sai, eu a levo até um pedaço e descubro que tem mais gente pelo meu jardim suspenso do que imaginava.

Percebo então que ele é um museu de fato, digo para ela que logo a encontro. Nas pessoas da multidão encontro um amigo meu de tempos, falo que moro ali e começo a querer sair com ele para desbravar, ele recusa, mas acaba por aceitar depois que percebe que não é obrigado a acompanhar o guia. Mostro-lhe as quatro piscinas, de tamanhos diferentes, com a água agora suja e sendo preenchidas como que por uma onda. Ele se impressiona por eu ter conseguido um lugar tão legal para morar, eu ia lhe contar sobre os vizinhos, mas acabei deixando para lá. Mostrei para ele que parte daquele jardim suspenso dava em movimentadas avenidas de mesmo nível, mas com grades enormes em volta.

Nisso lembro-me da namorada de meu amigo e vou verificar se ela achou a saída, desço as escadas que dão para a saída, ao final delas encontro:
– John Entwistle!!! – eu grito, era o baixista da minha banda favorita, com sua famosa roupa de esqueleto.
Ele se movia para uma fila onde todos me olham estranho após esse grito.
– Foi uma piada, eu sei que ele morreu – tento eu disfarçar.
Nisso vejo que naquela fila todos parecem roqueiros e nela vejo a beleza de Mick Jagger nos anos 60, aquilo me deixa atordoada, mas ele some... Procuro a saída com mais vontade, subo e desço escadas, tenho a impressão que eles me seguem, mas eles não estariam mortos?! Em uma das escadas que subo a mulher me diz que a saída é para cima, eu subo até lá, a escada se bifurca, nada tem fim, cada vez mais pessoas estranhas pelo caminho, quando chego ao fim, somente um chão de pedra, a única saída talvez fosse pular e morrer, como em Abre Los Ojos, grande filme...
Percebo que assim como no filme é tudo um grande sonho. Tal como em Alice, John seria meu coelho, o hotel seria meu Overlook rockstar, isso é o que dá ler dois livros de Stephen King de uma só vez.

De qualquer forma estava longe de meu Overlook com suas escadas e colunas de estilo grego, tudo em cor marfim.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Falsidade Ideológica

Talvez, para a maioria das pessoas, a sinceridade é querer demais. Alguns culpam a religião, outros os costumes, às vezes as regras de boa convivência, muitos nem sabem o que sentem. A verdade nua e crua pode ser dita, não necessariamente com essa discrição de um bife congelado, mas temperada com um pouco de humor, jeito e bom senso. Em alguns casos um bife congelado pode ser bem apetitoso também, entretanto, isso é só parte da minha personalidade peculiar. Uma explicação detalhada ou um pouco de filosofia ou racionalidade podem resolver problemas com o sistema nervoso simpático que nada tem haver com simpatia de fato.

O maior problema é quando a falsidade vem de dentro e engana-se a si mesmo, encarna-se o personagem, vive-se em uma realidade paralela mais cômoda, porem cedo ou tarde a verdade insiste em bater a porta com um balde vermelho contendo lágrimas, as vezes para ser divido entre você e o ator coadjuvante da peça, as vezes somente para ele. Parece-me que se valoriza mais as palavras que o sentimento de ser amado, quando a verdade surge, ela se espalha pelo ar como um esporófito, não necessitando ser afirmada veementemente como falsos discursos eleitorais. O silêncio sempre foi meu bem mais sincero. Meu jeito rude afasta os fracos presos em seus dogmas e mantêm os poucos fortes e sinceros os quais realmente me importam.

Fim de ano! Vamos às compras, um bom disfarce na falta de um abraço simples e sincero.