terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Drogas, o problema do mundo?

Droga: substância ou matéria-prima que tenha a finalidade medicamentosa ou sanitária; qualquer substância que previne ou cura doenças ao causar alterações fisiológicas nos organismos... Tanto as para os seres humanos quanto para o meio ambiente, quanto como funcionam, de onde vêm, o que são. Só na universidade para entender. Talvez seja parte do mal das drogas. Mas isso na verdade é só um modo de explicar O QUE ELAS PODEM CAUSAR.
http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2013/08/05/ritalina-e-os-riscos-de-um-genocidio-do-futuro


As vezes de modo meio exagerado, mas escancarando a problematização da aceitação ou não de uma droga ser proveniente da INDÚSTRIA FARMACÊUTICA um melhor refino, feito por doutores tecnocratas. A invenção da BAYER, se é BAYER é bom?
http://2.bp.blogspot.com/-yEwIR1cgVbA/TuCQLtnNT_I/AAAAAAAAAHo/ULjAiIUwAN0/s1600/bayer-heroin.gif
A Bayer criou a heroína como medicamento para diminuir os danos do vicio em morfina.
http://hypescience.com/10-inacreditaveis-propagandas-antigas-de-cocaina-e-outras-drogas/
 

O que muda com os anos é o conceito, o que influencia muitas vezes no vicio é a condição social
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/cocaina-e-crack-diferenca-e-classe-social-de-quem-consome/
O que torna algumas drogas como o alcool que tem danos muito mais severos ter venda livre e a maconha se banida, proibida. Interesses mercadológicos, ideologias eurocêntricas.
 

O problema são as drogas ou são a sociedade? Proibindo consomem-se drogas alteradas, vinda de caminhos ocultos. Comprando da indústria farmacêuticas você financia uma indústria que torturou milhares, das mais diversas formas, em seus testes, em seu modo de tratar a sociedade produtivista. Tal como o soma de aldous huxley. http://letras.mus.br/the-strokes/38770/traducao.html
Não sei, talvez isso tudo seja papo de gente das humanas... Malditos hippies comunistas...

Bem como, esta é uma conversa de todos aqueles que fogem do senso comum e da desinformação da grande mídia.

http://hypescience.com/10-inacreditaveis-propagandas-antigas-de-cocaina-e-outras-drogas/

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Simétrica Beleza

Qual seria o sentido da simetria? Qual sua vantagem evolutiva? Dizem que temos vantagens em ter órgãos duplos como o rim, estragou um temos reserva. Mas e os órgãos que mesmo sendo únicos possuem simetria? Simétrica afeição amorfa. Dizem que quanto mais simétrico os traços mais bela a pessoa. A simetria da afeição pode até servir aos padrões, mas de certo modo, me entendia. A simetria e sua perfeição, seus dobramentos precisos, seu tédio infinito. Onde a simetria realça, em mim nada evoca: a estrutura cópia perfeita. Gosto dos desníveis, da quebra da proporcionalidade. Pessoas de nariz imponentes, olheiras permanentes, cicatrizes de quem viveu além de uma vida aparada. Chamou-me atenção por algo de diferente em meio ao tédio comum exalado da mídia publicitária. Em meio a chateação da rotina um olhar lança-se sobre matéria desconhecida, inexplorada, pouco observada, longe de ser o foco das lentes, perto de mim passou. Nem sequer percebeu o olhar que lhe foi lançado, pelo costume de viver em outro espaço.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Não tem bom dia!

Próximo a rodoviária, eu de bike presencio a seguinte conversa:
- Bom dia!!!
- Não tem bom dia...
-??? *WTF?*- pensa
- É! Assim a gente já evita um monte de conversa - olha para mim e espera minha aprovação - né?-
Eu então respondo: -Desculpa, cara (vulgo senhor)! Curitiba é foda mesmo.

E viva a cidade sorriso, escrota e truculenta como só ela.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


O silêncio úmido de tua boca pulsante
Conta-me as novidades varridas pelos anos
Suscita sacrilégios
Mudos, suados

Antes perdoados do que esquecidos
Tacitamente escorrendo
Sob nossos pensamentos sucintos
cambaleantes; flutuantes.

No escuro agridoce dos quadris
o colorido pulsante

perfumado
perfurado
cortejante
conveniente
convincente
cortante
confinado
confidenciado

Lembra-me das doces noites
Frias tardes de gostos fortes
sabores intensos
sedosa pele sinuosa
situa-me ao teu lado
perto; alhures


sábado, 29 de dezembro de 2012

Os Fins

"A escória da vida cotidiana transformada em ouro fino"
Erderby sobre sua poesia

Primeiro fim de ano longe do mar
- ao menos dentre os quais sua mente consegue recordar-
assiste o escoar gelationoso da cidade
derretendo sobre o imenso calor
dissolvendo sua intensa movimentação
escorrendo serra abaixo
esfriando-se assim a cidade fria, frívola, fria.

Em um pedalar gotejante
sente por completo.
Em meio ao silencio e a calmaria
nunca estiveram assim sozinhos
aprecia o atrito com suas curvas sinuosas
seus altos e baixos desliza

Já não pensa em nada,
tudo em pausa,
inércia programada,
ócio solicito

[...]

Carta de alforria
Papeis assinados
Certidão de óbito entregue
após anos de burocracia e prolixidez 
enfim eutanásia

Sentia-se como Rosemary ao comemorar
em silencio a maioridade de seu filho
livre para o mundo escravizar
o criou com zelo, não teria coragem de matar
comemora em silencio irresponsável
irremediável
no entanto, não poderia mais ser responsabilizada
não era sua culpa.

[...]


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Reencontro


Um longo olhar disfarçado de descaso,
Uma breve despedida, um fracasso disfarçado
A verdade ríspida escorria pelo canto da boca
A ressaca dolorosa inunda a cabeça de lembranças
De um merlot a um gin
De uma esperança incrédula
de um passado que se propagará até o fim

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Per te

Para ti, o melhor e o pior de mim,
O que de mais valioso poderia lhe oferecer?
O que de mais profundo e profano?
Ofereço lhe simplesmente meus pensamentos,
meus ócios, meus devaneios, uma companhia
e uma certa boemia,
O que poderia lhe dar de mais valioso
do que meus momentos de solidão
querer dividir aquilo não se toca.


domingo, 9 de setembro de 2012

Eriçar


Sentiu arrepiar a nuca desnuda,
a embalar os curtos fios de cabelo despenteados. 
Um odor peculiar; 
algo entre hortelã canfora e ozônio; 
sugeria um frescor levemente incomodo, 
mas há muito aguardado. 
O vento modificava a paisagem,
os grãos de areia colidiam com as panturrilhas,
se mostra favorável
a partida, 
a novos rumos.

Içar ancoras!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Para o Passado - Ausente Presente -


O céu escurecia escarlate, a chuva regava o mar truculento, que tudo trazia. Exceto aquele que a partida me entristecia. Há muito cansada de esperar, noites perdidas ao luar observando o barulho, ouvindo o escuro, coração em intenso palpitar; 

taquicardia ao ritmo de fantasias, lembranças quase esquecidas de um passado quase vida, quase real. Não o via, mas o sentia, o vento a envolvia, excitava seus mamilos.
Frio doído, úmido e envolvente, cantarolando aquela canção onipresente. Embalando sua mente, acariciando seus longos cabelos negros. Areia entre os dedos, vento nas costas desnudas, cicatrizes exibem-se na ágora vazia, acariciadas levemente encobertas pela água salgada. Ela mergulha e o reencontra na profundeza silenciosa, fria e infinita.

sábado, 25 de agosto de 2012

A Brisa Avisa


Então a chuva começou a derramar voluptuosamente sua torrente de águas ardentes, arrepiantes, ardias e ariscas, tudo estava desculpado, tudo estava lavado, perfumado pelo ozônio, purificado de dentro para fora. Tudo, todas as paisagens eram cinema, preto branco, eterno e clássico. Clássico como ele, clássico como não era meu personagem.


Lésbica maconheira designer deslisava ziguesagendo, deslisando sobre o asfalto molhado, contemplando a curvatura das sinapses, livre rente ao solo, prestes a levantar voo... Tudo estava perdoado, nada necessitaria ser cancelado. O tempo já o fizera por ti, oh nobre criatura, angélica e alada, nos encontraremos em alguma viagem por terras distantes.

Nada precisava ser perdoado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Convite

Calmaria, sol, vento, concreto, equilíbrio, rua, movimento - simples seguia. O som é interrompido, telefone toca. Ouve-se a proposta, procura-se uma desculpa para não aceitar, não encontra, não vê motivos para não entregar-se, convence a si mesmo a entregar-se.
Vento, sol, BR, movimento, foge rapidamente da rotina, deixa o concreto pela areia, desce a serra, reencontra o ar.

domingo, 22 de julho de 2012

A Grande Tela

Olhava para mim,
nada poderia fazer, 
nada estava sob meu domínio, 
apenas sentir e sorrir.

Olhava as gotas no copo de conhaque.

A câmara se move,
sou cinegrafista:
Movimentação intensa, entropia.
O coração sempre começa ser auscultado
no além infinito gira o mundo som
alguém volta a falar,
não mais o coração,
mas dos Beatles, uma canção.

Let's draw
Epifanias
Clarice Linspector.
Kafka, 
Baratas, Musica eletrônica
Beatles

A câmara faz ahsim


Musica
Conversas alternadas
Palavras
Chamam o gato

Fala-se e vê-se o mundo 
como um espectador
HD 3D
mas não era a marionette perfeita

O gato Pula Psicodélico (pSicodélico)

Stgent PePPere chimarrão


Hoje foi muito mais rio grande,

narguiLI - desastre LI

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Algumas linhas

Noite fria, cama vazia, cheia de pensamentos,
Isenta de gemidos, ensurdecedores urros do mais brando silencio.
Ia escrever, mas me deu preguiça.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Café preto sem açúcar


Era ansiosa
As vezes
As coisas
eram como café:
deliciosas, fortes, intensas
quando quente,

porém...
[...]

No entanto,
Estava se curando
Isso também estava
passando lentamente
por entre o filtro
com água quente

Corria-se o risco de transbordar,
de borbulhar e queimar
aquele que ousasse experimentar
no impeto flamejante
chafurdar

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Feira do Escambo

"Feira do Escambo:
Uma vez por mês 
no nosso pátio da reitoria."
Obs.: Estanho habitat de sutis e surrais criaturas.


Trocou seus escritos
por três caixas
de citalopram

Trocou seu amor
por uma quantidade razoável
de pessoas
simples,
porem sinceras

Trocou o medo do relógio
por segundos eternos
em cima de uma montanha,
na beirada da cama

Trocou suas dúvidas
por dívidas
pagas em cerveja
divido por todos igualmente
tanto o pagar,
quanto o tomar,

Trocou seus escritos  frios, solitários, planos em papel pálido
por companhias homeotérmicas, quentes, coradas de carne e osso,
com curvas, cores, vãos, declives, textura.



Tive medo de te esquecer,
Tive medo de parar de sentir,
Lembrei-me que estava a me divertir
Voltei a meus afazeres.

domingo, 22 de abril de 2012

Quebra do Silêncio


Disse aquilo que não deveria o grito que obstruía minha fala e se quedava silencioso a brandar em minha alma. Preferi dizer sabendo que iria doer e inflamar, no entanto, inflamação aguda, que tende a se regenerar em algum momento, melhor do que essa inflamação crônica do silencio que fica me destruindo de forma silenciosa, que nunca vem à tona, que corroí por dentro: o pior dos males da caixa de Pandora, a Esperança. Ela em sua forma latente, cega, surda e muda.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

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Poderia na não-existência o vazio existir?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Arrepio

Finalmente um primeiro contato, leve afago, continuação exponencial; do simples tocar, quase sem querer, a cena é cortada para um beijo; ao mesmo tempo que os lábios se encontram ela sob sobre seus quadris; movimentos pélvicos pronunciam detalhes das cenas vindouras.

Após tanto tempo a trocar de olhares, tantas declarações no silêncio, tudo virava concreto, tocável, moldável... Os sussurros substituíam as palavras, a respiração seguia no ritmo descompassado das mãos que exploravam o desconhecido.

A cena muda novamente. 
Seguem par a o quarto, iluminação baixa, suficientemente apropriada. As roupas a caírem no chão de modo dessincronizado, a pressa expansiva maestra a cena. O parnasianismo afasta-se e esconde-se não há porque buscar o belo, simplesmente por ele. Buscam o sentir e não mais admirar, toda a estética dá lugar à profundidade.

Caem as roupas, assim como eles, da cama, a embriaguez joga seus efeitos sob a atmosfera, o cair não interrompe o acontecer, estende-se sob ele, encoberta, encobre.  A temperatura aumenta, os sussurros tornam-se urros, a garrafa de vinho é entornada, abre-se a janela. A lua ilumina as faces enrubescidas, e da mesma forma dessincronizada tudo recomeça  como se fosse o primeiro encontro, então se repete, repete, reee-pete, reptee... repet...

Passeio noturno e cambaleante sob a lua, sobre as ruas, pelos bares. 
Só então o cair dos olhos, o desmaiar do corpo, um sobre o outro.

Pico de cortisol, os olhos abrem, recomeçam os encontros. O mito é comprovado de modo suave, com resquícios do vinho, notas de empirismo e discordâncias. Breve momento no qual o tabu é quebrado e palavras prounciadas;
-Você havia se planejado para isso?
-Não, apenas sonhado.
Nada mais precisava ser dito, eram apenas sussurros


Foto: Martin Kovalik
Um dos meus favoritos

sábado, 17 de março de 2012

Escritos

Esse fim de noite, 
esse fim de dia,
essas histórias
cismam em não terminar.

Tudo que ronda minha mente,
 finge estar em meu coração.

Saudades de ti inexistência criada sordidamente sobre o idealismo de meus devaneios.
Escrevo o que se encontra no passado imerso em meus pensamentos, se este fosse presente, se fosse palpável apenas viveria, quando este não me é possível torno a transcrever.
Isso explica um pouco dos assuntos com um fim já delimitado, contidos em si e em minhas memórias, as quais são estas a única prova de tal existência, prova esta altamente refutável daquilo que há muito já não existe senão na mente de quem o cultiva.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Emêse

Fadigado,
insiste em andar em círculos,
a vertigem lhe alucina,
Confere-lhe perda
de toda e qualquer clareza.
Fala sozinho,
respondido pelo eco do lugar vazio.

Esse estado ébrio
conferido pela sobriedade do ser.
Sabia não ter saída;
Tarde demais,
Estava adita.

sábado, 10 de março de 2012

The Naked Reading



Devorava escritos,
como quem literalmente come
devorava as palavras rapidamente para saciar a fome,
outrora degustava lentamente.
Sempre procurando um chocolate em meio à despensa,
Buscando, no entanto, um meio amargo ou com pimenta.

Foto retida de  Obvious, um olhar mais demorado
Vale a pena ler do que se trata


segunda-feira, 5 de março de 2012

Discussão de Gênero

Cortaria meu clitóris para me afugentar destas dores
Abnegaria dos prazeres carnais
para ser tratada com um pouco mais de respeito
Um pouco menos de mentiras
Um pouco menos de machismo

Garotos de esquerda fascista,
Que se dizem feministas
Conheci alguns,
Apaixonei-me
Perdidamente
Doce utopia ao deslizar por entre as minhas pernas
Doces lábios que saiam do discurso e embalavam meu imaginário

Palavras belas, escolhidas para demonstrar maior erudição
Sempre garotos da área de Humanas,
Humanos, demasiadamente humanos
Ser desumano:  típico dos ser humano
Nunca entendi a Etimologia

Aquele estudante de comunicação que se calou
Para mim para todo o sempre
Foi quem me conduziu ao psicólogo e ao psiquiatra
Pensei que estaria passando dos limites ao sentir tudo aquilo
Queria um anestésico forte

Ele se calou em repudio as minhas palavras grossas
Ao meu escárnio, sarcasmo e ódio incontidos
Passei a pensar que a culpa era minha
Ele poderia dilacerar minha alma,
Eu assim havia permitido,
Ele era inocente,
Nada que eu havia falado fazia sentido
Não deveria tê-lo xingado

Mas melhor manter-se calado,
Assim ninguém mais é enganado,
Tal como ela havia sido
Eu seria a próxima da fila

Aquele outro pregava o amor livre,
Queria um relacionamento aberto,
Falava de feminismo.

Adentrei um relacionamento aberto onde
Ele pensava que só ele era inseguro
Onde eu era a vadia, prostituída
Onde ele poderia amar duas
E ele não se continha
quando eu conhecia
outros lábios
Todos parecem iguais,
Direita ou esquerda
Ele me disse não perceber seu machismo
Eis o problema da acomodação

domingo, 4 de março de 2012

As Badaladas

Nas madrugadas
envoltas pela ressaca,
dor de cabeça,
peso na consciência,
reconsidera-se a 

existência,
véspera de dia útil,
cabeça não descansa
a torrente de idéias
desconexas afoga
o ser humano.

Revirava-se na cama, levantava, tropeçava,
pisava sob os pensamentos coerentes,
batia o dedo no tocante,
chafurdava-se
no
interior de
seus monstros.

Escondidos
debaixo
da cama,
dentro
do ser
Prestes a
explodir,
prestes a
enlouquecer.

Suas vontades profanas a cercar sua vida;
busca escritos,
busca outras vidas

Espelhar-se e tentar dividir o peso da existência com desconhecidos,
apoiar-se sobre o frágil. Pisar sob cacos de vidros pensando se estes, pelo menos por esta única vez poderiam ajudar
a sustentar
o corpo
frágil e fraco. 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Novo Layout

A mudança se deu, pois pensei que seria melhor ter uma imagem mais autoral no título do blog, acabei por mudar o fundo e essa versão ainda não está bem fechada. 
O que acharam?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Anatomia


Passado alguns dias em uma cafeteria escondida,
um pouco de verde em meio ao cinza, 
onde eles eram os únicos a falar uma língua latina
surge um tema da consistência do ser humano:
não compreendia a beleza envolta em 
um corpo sem vida, envolto em resina.
Dissecação anatômica perfeita,
mostrando cada detalhe ignorado
sob o manto da pele.

Aquilo somos nós, aquilo era o que ignorávamos pedaço protéico a se decompor lentamente, nossa glicerina: nossa vida a qual tentava resistir com mais flexibilidade ao passar do tempo.

Tocando e espalhando-se na matéria sobre a gélida mesa de metal espelhamos e contemplamos a beleza e desenvoltura da morfologia deste animal chamado o homem.

Não compreendia a beleza do cadáver aquele que nunca se debruçou sob o corpo cadavérico de um desconhecido, amou aquele que se cedeu além vida para o desenvolvimento cientifico ou lamentou o passado daquele pobre indigente de estomago atrofiado.

Nunca gostou das aulas de anatomia, o formol irritava a mucosa nasal e seus olhos lacrimejavam. Enquanto todos tratavam aquilo como uma peça, ela ficava a pensar sobre as reflexões que haviam habitado a juventude daquela hemicabeça, talvez o formol fosse mera desculpa.


Créditos da  foto
Obvious: um olhar mais demorado 
Ótimo blog por sinal

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Manhã de Sábado

-Bom dia...
-Bom dia...
-...
-zzzz....
-Não vais levantar?
-Sinto não possuir forças.
-Hm.

Começava-se o dialogo mudo entre dois quase desconhecidos, mente ainda adormecida, tentando refazer os caminhos da noite anterior. Dialogo com meias palavras, conduzido de modo pausado, sussurrado, desritmado, descompensado, arrastado, esbarrando entre os lábios que tendem a se fechar, de modo a fazer companhia aos olhos. O sol de sábado iluminava minimamente o quarto, iluminava o corpo pálido com ossos proeminentes.

O protocolo fora quebrado, deveriam levanta-se e despedir-se. Ficou lá, o tempo a transcorrer. Ela resolve colocar um sobretudo e ir a farmácia, sai então de modo indiscreto, sobretudo frente ao sol, chinelo, resquícios de maquiagem da noite passada, cabelo despenteado, exalando a fumaça de cigarros alheios diluídos em suor e fluidos. Olhar desinteressado frente aos olhares de reprovação. Pega um pacote grande de preservativos e uma escova de dentes, sem cerimônias, paga, guarda no bolso e volta pelo caminho em seu andar rastejante sob as havaianas que quase se perdem pelo caminho.

Lá está ele do modo como o deixou.
-Comprei isso aqui... Faça favor de usá-los já que vai ficar ai... -  Diz ao colocar sob a escrivaninha.
-Hm...
-Vai comer?
-Não, não precisa. Não consigo sair daqui...
-Vou pedir comida para a gente então.
-Não tenho dinheiro.
-Eu tenho... Não dá nada.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Garoa e Vinho Tinto



Voltei, o silencio permaneceu
Ficara para sempre em seus lábios

Ao contrário de mim

Não se pronunciara no inicio
Calou-se para sempre ao chegar o fim

E assim tudo acabou como se nunca houvesse existido
Como um devaneio unilateral mantido em segredo eterno




Créditos da Foto
Modificado de
http://www.saopaulo.sp.gov.br/bancoImagens/albuns/7010/_d30075.jpg

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O silencio ocupa a alma, o branco encobre o papel, os músculos fadigados recusam-se a tecer mais uma história. De repente não há mais o que falar. Por quê? O que mudou? Ao pensar sobre isso me lembrei de seus escritos... Sinto antiga palpitação, assunto antigo, no entanto a euforia repete-se como da primeira vez. Por que não aceitas de uma vez? Por que não consegues conviver com isso? Por que não paras? O que tem você? Começas a perder-te no meio de toda insanidade, começa a delirar como Raskólnikov, começa a compreender Werther. Não, nunca acreditou que tudo aquilo foi amor, era apenas uma idéia fixa. Muitas pessoas morrerem disso, uma lástima que a elas não cabem as estatísticas. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Metacromasia

Não tocou no assunto, o silencio falou por si, em um dialogo contido e sem respostas, um monólogo de drama e suspense.

O admirar, o fingir não notar, eternidade efêmera a transcorrer com leve som externo a se mover.

Som este tão singelo perto do estrondo tempestuoso que ocorria em sua mente; torrentes de pensamentos inundavam o ser... Assim como as tempestades estes também possuíam seus admiradores e sua beleza eterna e pesada, levando consigo tudo, arrasta e carrega, envolve e afoga.

O impulsionar sem se envolver ― não gostaria de ser este a puxar o assunto, fingiu não coordenar, dizia nada haver preparado, mas tudo estava lá, minuciosamente preparado, nem mesmo a fotografia não poderia ser mais propicia.

Observavam de cima o movimento insano de todas aquelas pessoas apressadas que buscavam chegar na hora para seus compromissos, assistiam a todo o tumulto sem o menor envolvimento; contemplavam de cima todas as preocupações dos seres humanos ― doce ilusão que uma bela imagem poderia criar.

Bela imagem de pano de fundo para ouvir um não que viera de longe para receber, gostaria de ouvi-lo logo em seu primeiro dia e tudo poder então esquecer, o discurso ensaiado saiu como se não houvesse sido praticado, a ação ecoou sem direção, perdeu-se a ligação dentre eles. Assim a cena se eternizou, no entanto o “não” mesmo não havendo sido pronunciado iria ecoar mudo em um futuro.

Mítica garoa caia fina na noite espessa molhava as faces enrubescidas, assim como os lábios envoltos pela frieza da garrafa que transbordava vinho tinto. A temperatura caia, por mais que existisse calor em seu interior; o frio congelava as mãos e arrepiava levemente a epiderme.

Em uma teimosia perversa típica insistiam em mostra-se mais forte que o clima, mantinha-se paralisados no mesmo banco, prosseguiam sóbrias as conversas ébrias sob a fotografia sombria em tons quentes.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Últimas Notícias

Não passou na mídia de massa:

“Mais um massacre:
 Inocente esvaindo em sangue, seu crime: ter lutado por um direito básico o direito básico de ter um teto. Morreram estes em prol do direito de uns e outros encherem o c* de dinheiro.”

A matéria continuava com seu falatório mudo:

“Quem decidiu sobre a vida ou a morte daqueles? O Estado. Quem financiou o aparato? Eu você, e todos nós. Pagamos impostos para ajudar no financiamento do massacre de nossos irmãos de luta. Governante, cristão, de boa família repousa sob o travesseiro após engolir almas e escarrar sangue na cara do povo.
Reza a lenda que seu partido havia sido contra a ditadura, grande novidade...  A Direita de hoje era a Esquerda de ontem; a Esquerda de hoje são aqueles poucos que lutam para conquistar o poder e então poderem se corromper.”

Lembrará disso em seu passeio matutino, lembrara com um hibrido de velha memória, devaneio, embriaguez e cansaço; esforçara-se, mas o franzir do cenho em nada a auxiliava em remeter suas memórias. Acendeu o cigarro, o levou á sua boca empalidecendo o batom vermelho em seus lábios, escurecendo seu pulmão, pouco a ela restava, era o ultimo dia de sua vida, era o ultimo dia da vida de todos aqueles que a cercavam e de todos aqueles os quais não tivera oportunidade de conhecer, de amar, de odiar, ou de em sua vida passar sem nada alterar. Havia decidido contemplar a humanidade, sair vestindo nada embaixo de um sobretudo, coturno  desamarrado com meia 7/8 rasgada. Escolhera o visual de modo a não perder seus últimos minutos com futilidades como roupa, e ao mesmo tempo parecer elegante ao esperar pelo grande show.

Milhares de gerações haviam clamado por este momento que ela estava prestes a presenciar, a pauta máxima comunista e anarquista: o fim de uma sociedade desigual estava anunciado para aquele fim de tarde. Por ironia daquilo que não existia, o chamado Destino, isso se daria com o fim da raça humana, patrocinada pelas grandes empresas, grande show com fogos de artifício, whisky sem gelo, full HD, transmitida para todo o mundo, enfim luzes, explosão, camarins de pessoas famosas, os bastidores dos famosos.

Quem assistiria tudo aquilo? Era o fim do mundo, quem estava se importando com televisão? Aqueles que se deliciavam com o cortar das linhas que os prendiam como marionetes, enfim estariam livres da escravidão, pena que por tanto tempo, ao menos tinham o que comemorar, era a primeira vez em toda a história da humanidade que os menos favorecidos teriam seus primeiros e últimos minutos de liberdade suprema. Aguardavam como condicionados estavam: em frente à TV só assim saberiam o momento exato.

Ela passava e observava todas as TVs ligadas, todas em um mesmo canal sintonizadas, por mais que em todos os canais passem a mesma coisa, a prioridade continuava sendo a mesma.

Era o fim de tudo, e tudo seguia seu rumo até lá, esforçavam-se todos em prol de manter tudo nos conformes, manter tudo como sempre se lutara para manter, tudo igual, transcorrendo por inércia. Manter a rotina e os conformes era o ultimo desejo dos poderosos, os donos da festa niilista.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ócio da Madrugada

Fim de um dia de verão, por entre a escuridão chagada à hora de seu encontro com a solidão, na hora marcada, madrugada, imensa nesta, ao tatear depara-se com silencio. A temperatura se torna enfim mais amena, a tranqüilidade imunda a sala; a cidade que não dorme estava agora a tirar o sono dos pacatos moradores das pequenas litorâneas.

Sabia que muitos possuíam modo similar de aproveitar seus dias dedicados única e exclusivamente ao ócio, invertendo os dias abafados pelas noites serenas.

Lembrou-se então de inúmeras conversas ínfimas adentrando madrugadas sobre assuntos profundos tratados de forma simples e cotidiana. Acompanhou o movimento de chegadas e saídas, observou pela janela que inúmeras pessoas compartilhavam de sua insônia voluntária.

Liberdade detinha agora para estudar aquilo que não alimentará o corpo e sim a alma; momento de voltar à essência e buscas novas filosofias, rever questões políticas, apaixonar-se pela literatura. Apaixonar-se pela inconstância, aprender a praticar o desapego. Voltar a interessar-se por assuntos antigos. Reencontrar a paixão pela existência e pelo existencialismo, deixar de lado o niilismo cotidiano.

Desprender-se, o corpo se mantém em seu lar, a mente não mais está. Fez então um café, acende a luz, empunhou a caneta em sua mão e começa a redigir madrugada adentro. É bom estar de volta.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Azul

Azul é a única coisa que eu tenho daquela época... 
Eu já não tenho mais o mesmo sorriso.
A beleza deste já desbotou como meu vestido.
Assim tudo se acabou,
pensando eu que nada tinha mudado
exceto a minha forma de ver as coisas. 

Azul para ingleses: tristeza, 
para os alemães: alegria, 
Para mim: nostalgia 

daquele olhar sarcástico e desinibido.


Obs.: texto datado de um longinquou período, sendo que não mais destes sentimentos compartinho, apenas da memória de um tempo não esquecido.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Análise de Caso / Há tempos

“Eu não tenho tempo!
Ele não é meu e nunca será de minha posse.
Será que ele me tem?!
Só sei q ele some, evapora furtivamente,
é altamente volátil.”
Havia escrito há algum tempo atrás.

Continuava sendo verdade, continuava aflita por nada conseguir fazer e ser diariamente engolida por esse grande desconhecido. Até o dia em que finalmente compreendeu sua patologia: Criará uma imagem irreal, apaixonou-se por ela.  

Assim como nos desenhos animados, só caiu após ver que pira em falso. Até então estava tudo certo, exceto pela mania de acreditar no pior. Seu lado pessimista torcia pelo fracasso apenas para dizer: “Lhe avisei”.

Passado o tempo, descobriu que se apaixonara pelo impossível, apaixonara-se pelo Futuro. Acreditava não possuir o Presente, acreditava que nunca daria certo com esse, enquanto este era o único que sempre estivera a seu dispor. Enquanto isso, ela buscava incessantemente o Futuro que nunca olhou para trás enquanto ela o perseguia.

 Mantinha também um relacionamento aberto com o Passado, sendo, no entanto algo mais físico, no qual não conseguia resistir a todo aquele alinhamento, aquela postura esguia, seu extenso vocabulário e toda erudição e formalidade.

Até que enfim viu que o Futuro era nada mais que um escape, um escape para um lugar distante, onde via projetada alguém que não era ela, onde seu pensamento adito insistia em estar, insistindo em não ver o Presente.

Percebera: Não adiantava em nada gostar do Futuro, era inalcançável, só lhe frustrava, estava viciada nessa frustração, na verdade usava essa desculpa para não se entregar ao Presente, mentia para este, mentia para si mesma.

Despediu-se de todos,
Especialmente de sua melhor amiga,
Amiga de longa data,
Velha e fiel Ansiedade
Assim resolveu aceitar o Presente.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Miopia

De tanto olhar para o micro
Deixará de compreender o macro
De tanto olhar no microscópio
Não reconhece mais os de sua própria espécie
Esqueceu de quem seria
Como um ser em sua totalidade.
Compreendia as micromoléculas,
Mas não compreendia sua própria conformação
Compreendia Neurobiologia
Não compreendia o que pensava

Buscava evidencias apoiadas em dados
Buscava confirmação por análises estatísticas
Não acreditava nem que sua existência
poderia ter resultados significativos
Com o passar do tempo,
Desenvolverá miopia.
Se concentrado no que poucos contemplavam
Não conseguia admirar aquilo que lhe cercava.

A beleza que se dissipava em meio a todos
Não percebia a beleza que em torno de si existia
Aquela a qual auxiliava compor
Em todo seu esplendor e harmonia
Apenas vultos e artefatos compreendia.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Seguia

Seguia ela o caminho,
Já não sabia mais para onde ia,
Não mais lhe conhecia
Seguia só,
Seguia com um alguém,
Seguia com outro

Ninguém entendia
O que ela fazia
O que ela queria
Nem ela mesma

Seguia por ruas vazias
Seguia por estradas de chão
Seguia por vilarejos
Ouvia sons, mas não os compreendia
Ouvia passos, mas estava sozinha
Amava seu delírio
Não era correspondido

Delirava então que amava
Quem?
Ela não sabia
Sentia-se então culpada

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Abnego

Abnego de ti.

Abneguei em muito nos últimos tempos.
Abneguei de meu lar,
Minha estabilidade,
Minha sanidade.

Abneguei-me de minhas mentiras,
Abnego-me agora das tuas.

Passado o tempo vi que não conseguiria
mais viver minha vida daquela forma, 
não aguentaria mais meu corpo preso aqui, 
estando minha essência distante, 
contigo em outro universo.

Abneguei inclusive de mostrar-me 
tal como sempre quis: 
inatingível, inabalada;
No entanto,
mostrei-me como sempre
foi de meu agrado: com convicção e determinação.

Percebo que a teoria mostra-se diferente da prática.
Percebo que a imagem construída, desmorona, se liquefaz.
Percebo que talvez tudo aquilo que me encantou,
talvez fosse,
apenas um delírio incontido dentro de si mesmo.

A letargia manteve-me por todo esse tempo,
Adita neste placebo, agora revelado.
Fim do teste de duplo cego,
O qual se mostrou estatisticamente significante
Para o tubo branco.

No entanto.

O que seria o fim,
Senão um começo
de trás para frente.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Restaura-se

“O que procura você naquilo que já conheces?” – perguntou-lhe

“Procuro aquilo que já conheço porem que havia esquecido, cansei de procurar em corpos, copos, ambos sempre vazios, em calçadas na frente dos bares lotados... At last He used to like me... Não tem como procurar algo profundo na vazão de todas essas relações, não há como encontrar nada, estou eu e somente eu, eles estão acompanhados, eu estou na companhia das minhas próprias ilusões no canto a observar, porem sem me comover.”

“Disfarças bem neste canto” – interviu.

“Gostaria de ter o que disfarçar;
sou meu próprio disfarce,
sou minha própria marginalidade,
sou o reflexo de toda austeridade.”
– declamou para sua dose de bourbon.

“Sou a sobra que ofusca
seu próprio brilho,
sou todos os desatino,
Sou a torcida por todos,
Os quais torcem pelo meu fim.”

“Sou aquilo que acabará
por confiar naquilo que,
por ela, deixou de ser,
Cairá em sua própria armadilha
Com o sentimento de Déjà Vu "

“Compreendo... Mas e aquele seu problema de ansiedade, resolveu?” 
– Mais uma vez lhe interrompeu.

“Minha ansiedade ainda existe
Antes esperava pelo melhor
Agora ela continua
Mas não vejo muito além.”

“A gente costumava ser amigo, porque você sumiu?”

“Eu não sumi, você que nunca mais apareceu....”
–Respondeu, pela primeira vez sem interromper lhe.
“...Nem para si mesmo...” – Concluiu baixinho.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Autodestruição

Procurou, encontrou, no fundo sabia estava correndo seu fígado e por isso bebia, sabia que no fundo não tinha motivos para comemorar. Acreditava ter que descer até o fundo do poço para poder se reencontrar. Afastou-se de tudo e de todos, se juntou a desconhecidos, desceu ao subterrâneo, dizia procurar aventura, dizia procurar pessoas, no fundo só queria a escuridão e esquecer-se de si mesmo.

 Dia desses cambaleando pela rua escura encontrou um velho conhecido, velho amigo, um dos poucos que ainda se importava, não viu este, não via nada, não se importava com nada, não temia, buscava sabotar a si mesma, não se importava, não queria ninguém que se importasse. Fechava-se em si, ria esquizofrenicamente por fora, gritava desesperadamente por dentro. Buscava alguma coisa destruindo-se assim, talvez remissão, autoflagelação, talvez ressurreição, talvez se tornar fênix.

Sabia que poucos eram o que viam sua queda, poucos eram o quais compreendiam sua alma vendida, trocada por uma garrafa de gim barata. Um preço justo por um fracasso, um preço justo por uma perda tão fútil, um preço de quem não sabe quem é não conhece o valor que tem, preço de quem foi até o inferno e voltou no mesmo dia, mas que nunca seria permitida a entrada no céu.

Olhava para baixo, para onde iria estar em breve, ao fundo, cada vez mais profundo... Surge na sua frente uma mão, não saberia dizer ao certo de quem. Pega nesta e levanta. Olha para cima e lá estava a velha companhia, não acreditara, levantou-se tentou parecer menos mal, envergonhou-se.

-Tudo bem agora, vem, vamos para casa, farei um chá. Arrumo-te uma banheira, trouxe algumas roupas que havias deixado lá em casa quando costumávamos nos encontrar e passar as tardes a filosofar, tem uma cama lá te esperando.

Ela partiu, estava trilhado o caminho de Dante partindo para o limbo, em direção ao paraíso.

Dia Ensolarado

Não sabia se era o sol ameno sobre seu corpo, a luz do dia incidindo em seu rosto, o vento suave em seu cabelo... Componentes daquele dia muito bem desperto ou se seriam os resquícios da noite passada; muito bem pouco dormida. Sabia apenas que se senti bem e com isso parecia compreender a essência do universo, sem precisar se perder em meio à física e a filosofia. Toda a filosofia da vida fazia parte dela. Sentia-se flutuando, voando baixo, sua mente voando alto, sua essência em órbita, a emanar de si e preencher os locais abertos. Não havia tomado o costumeiro café, não havia ingerido doces, senti-se sonolenta e muito desperta em meio a uma atmosfera onírica.

domingo, 2 de outubro de 2011

Holometábolo

Deu-se a metamorfose, não tal como a de Kafka, de forma alguma, não tinha a menor semelhança com espécie nenhuma de coleóptero. Todos comentavam sobre sua mudança, ela o contemplava também, entretanto demorou a se convencer, de fato, que não era mais a mesma.

 Sentia que poderia ir mais longe, empolgo-se e caiu, resolveu ir com calma e adaptar-se a essa nova condição de ser alado. As formas eram outras, seu modo de vê-las também. O sorriso que povoava seu rosto era mais constante e mais firme, não mais apoiado nas muletas do surrealismo. Agora tudo parecia mais sólido, palpável, tudo parecia ter mais forma.

Mas o surrealismo também esteve lá, onde as vontades se transformam em verdades tão logo são concebidas já se encaminham para o plano do real. Era tudo uma questão de tempo até sentir-se ambientada a sua nova situação. Tudo sempre foi questão de tempo: Torna-te quem tu és.

domingo, 18 de setembro de 2011

O Reencontro

Ela reencontrou seu passado, conversaram por algum tempo. Nem muito, nem pouco, o suficiente. Ele lhe mostrou aquilo tudo que ela havia esquecido, mostrou-lhe seu verdadeiro reflexo. A fez parar de acreditar em suas próprias mentiras, trouxe a tona tudo que ela já sabia.

Ela não lhe disse uma palavra, deixou que ele contasse as novidades de sua vida, a vida dela. Ele lhe contou tudo que estava passando na vida desta, seus desejos, suas vontades, seus sentimentos... Relatando a vida dela com mais precisão do que ela mesma, ele via de fora, de dentro para fora, via através de tudo.

Ele era um velho conhecido, falava com um sábio, falava como quem tem uma longa trajetória, como quem vem de longe para mostrar o que não se quer enxergar. Contou os pequenos segredos escondidos em meias palavras... E assim partiu, transformando tudo para como na verdade é. 

Torna-te quem tu és

domingo, 11 de setembro de 2011

A Alpinista

Há seis anos na beira do abismo,
Há seis anos pendurada por um fio,
Finalmente:
a
Q
U
E
D
A

. Ao rolar pelo precipício, muitas coisas ela trouxe para baixo consigo.

Já havia sido alertada por outro alpinista dos perigos; este conhecia a prática, diferentemente desta que sabia muito, mas apenas da teoria, da observação, de anos de estudo... Os quais caíram por terra ao lado dela.

Ela havia se voluntariado a queda, era a única forma de tentar escapar, de sair daquela situação... Era arriscado, mas caso ocorresse tudo como ela desejava, conseguiria subir e finalmente chegar ao topo, finalmente poder descansar... Poder, enfim, admirar sua conquista, a bela paisagem, passar a noite lá em cima, ver as estrelas e voltar para casa com uma alegria que em si mesma não caberia.

Mas infelizmente, sua busca desesperada por uma forma de sair daquele impasse foi errada, e lá está ela a descer o morro, levando consigo pedras e terra, tentando inutilmente se agarrar na vegetação, levando esta consigo, para fim do abismo.

Sentiu então sua pele dilacerar com as pequenas pedras em sua pele cravar, sentiu o atrito, sentiu a ardência. Não tentou mais escapar, achou melhor aceitar. Por muito tempo havia pensando no que fazer; agora não a restava mais nada senão sentir a queda. Buscou então alguma volúpia masoquista recordando-se de uma frase contida em um dos romances do sábio Goethe “Não há alegria sem dor, dor sem delícia”.

Só lhe restava esperar a queda acabar, reunir suas coisas e partir. Ir para casa desinfectar suas feridas, verificar o que foi quebrado, tirar toda a terra de si... Borrifar álcool 70° com um sorriso sarcástico e aguardar a cicatrização, enquanto isso: aproveitar. Verificar que de fato há sangue em seus vasos, verificar que de fato continuar viva. Aguardar o retorno, contar para os amigos. Mostrar as cicatrizes e ouvir a velha pergunta “Mas valeu a pena?”. Não encontrar resposta, não há resposta, não nem o sim, nem o não estão corretos, não há certo ou errado.

Por fim, brindar o fracasso com uma água tônica e sentir o sabor da vida.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Anamnese

Ela adentrou o consultório com um medo quase infantil, roupas adolescentes, um jeito desalinhado, cabelo despenteado e olhar indiferente.
Sentou no divã como quem senta na cadeira do dentista, sem dirigir nenhuma palavra ao analista...
(Psicólogo, psicanalista, psiquiatra... Nem ela mais sabia; poderia até ter recorrido, por engano, a um neurologista ou neurocientista...)
Sentou-se de modo sem jeito e seco; sentindo-se como uma mulher em sua visita rotineira ao ginecologista... Sentia-se tanto ou mais exposta que em tal circunstância.

domingo, 21 de agosto de 2011

Domingo

Dia cinza, frio, chuvoso, sonolento,
Típico domingo, 
Conversas que não se desenvolvem, 
Tão logo são abortadas espontaneamente.

Janela embaçada escondendo nossa própria solidão,
Escorrendo como o tempo.

Nosso tédio interior e falta de vontade de mudar,
A falta de ter uma opção para telefonar 
E com ele dividir um vinho ou um capuchino. 

Nosso e, ao mesmo tempo, apenas meu.

As pessoas bem vestidas passeando sob o forte vento
Tentando esconder atrás de tanta roupa e maquiagem
O seu eu devastado e sonolento.

Vão ao shopping preencher-se com futilidades,
Ou assumem sua condição e
Dormem ignorando a existência
Assumindo suas fraquezas.

Dividimos as mesmas concepções,
Mas não mais o mesmo recinto.

A umidade diluindo a essência; 
Deixando-nos aguados... 
Nada inesperado.
Mais um dia sem novidades, 

mais um dia almoçando as três da tarde.

Cair da noite

E então
A depressão instantânea
Véspera de segunda-feira,
Onde a solidão torna mais reclusa,
Escondida dentro de cada ser,
Que diz bom dia.

domingo, 7 de agosto de 2011

A Epístola

Deu-me vontade de enviar-lhe esta epístola
Para que ela esteja aonde não pude estar,
Para que ela seja tocada e sentida por ti,
Para que ela se misture as suas coisas
E seja guardada em um canto obscuro,
Mas não perdida,
Para que ela leve uma parte de mim...
E esta, esteja contigo.

Tentando que esta leve tudo que eu sinto,
Faça-me esquecer tudo isso,
Que me perturba noite e dia.

Para que essa parte de mim,
Seja, dentro da gaveta, esquecida.

Seja reencontrada em alguma limpeza
E dela surja apenas um sorriso,
Como quem acha algo há muito tempo guardado,
E se lembra de um tempo que não volta mais.

Que fique ela junto aos teus livros,
Junto com a inspiração dos mortos,
Que em mim tu tornaste viva.

Entretanto, está carta não tem endereço,
Seu destinatário será apenas algum canto na minha gaveta:
Um lembrete para parar de agir como uma idiota.

Poderia apagar-te de todas as lembraças
Todos aqueles pequenos detalhes,
Os quais insistem em debochar de minha atual situação.

Mas de nada adiantaria,
Minha própria mente iria continuar
A sabotar-me diariamente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Viagem

Faz tempo que ele se foi... As coisas mudaram tanto, entretanto, ao mesmo tempo parece que toda a minha vida continua a habitar de forma cíclica aquele mesmo dia, aqueles mesmo minutos de eternidade até hoje.  A questão de como tudo seria hoje se eu não tivesse o deixado ir, faz-me sentir como se ele continuasse aqui.  Queria falar com ele, na verdade já havíamos conversado sobre isso tantas e tantas vezes... A questão é que desde que ele foi embora vivemos nossas vidas como se aquilo jamais tivesse acontecido, exceto eu.

A maioria das coisas se apresenta apenas uma única vez, a pressão para tal acaba por fazer parte da escolha, dependendo da personalidade de quem decide. A oportunidade de acontecer algo se apresenta e se despende, e por mais que pense a respeito, nunca saberemos ao certo o que teria sido melhor. Aceitamos o presente então de forma consoladora e passamos a fingir acreditar que realmente era para ter sido assim. Aceitamos o presente e agradecemos com um sorriso mais forçado do que o de costume, agradecendo sempre simplesmente pela data não ter passado em branco.

Às vezes um não é mais tranqüilizante do que a angustia de não saber, as duvidas sempre trouxeram muito progresso, mas pelo fato de elas serem de fato incômodas... Então tentamos entender tudo, porém, nem tudo cabe a nós entender, nem tudo nos é aceito ou compreendido, comigo geralmente apenas um desde. Comigo sempre o conflito eterno do lobo frontal com o sistema límbico, onde sempre haverá um perdedor que jamais esquecerá sua derrota.

 Conversamos a respeito, conversei mesmo já sabendo a resposta, resposta puramente racional, as perguntas puramente emocionais. Mas ao final, um quase empate, nenhum deles ficou extremamente frustrado, ambos gostaram de alguma parte da conversa, apesar do saldo negativo ao menos a dúvida e a ansiedade foram sumindo, juntamente com a chuva e a louca vontade de correr pelas ruas sentindo-a sob meu corpo e inundando minha alma, até a exaustão, a fadiga muscular, a dor, mas, ao mesmo tempo, toda endorfina, por fim o dormir no asfalto e o acordar com pneumonia e dor nos ossos e articulações.


No fim nada mais que memórias e algumas poucas certezas.
Afinal é a memória que torna viva muitas coisas que sem ela não existiram mais.

Estado de espirito: tal e qual uma obra de Edward Hopper.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ode a Curitiba

Acordei com um pombo batendo contra minha janela, exatamente 3 minutos antes do meu celular despertar... Para minha sorte já havia sido alertada para este fato dias atrás quando uma delas quase adentrou meu quarto, caso contrário, poderia ter sido bem pior... Umas das coisas que não gosto nas cidades grandes são as pombas, aqui elas que vem me acordar ao invés dos pássaros das cidades pequenas.

Amo essa cidade, mesmo não sendo minha, já que não nasci aqui, mas sinto que ela pertenço sendo está interiorizada em meu ser mais que qualquer outra...  Mesmo não tendo lembranças distantes e ser uma pessoa nostálgica, isso não a diminui em nada meu sentimento. As cidades em que passei períodos mais distantes ou nunca mais vi ou mudaram muito... Não sou daqui, mas sinto como se tivesse nascido, crescido e morrido nesta terra... Logo comigo que era tão Catarinense... Lá costumo me encontrar perdida, sem referências. Me encantei por este lugar desde a primeira vez que o vi e no fundo já sabia que viria para ficar.
Amo o centro, Centro Histórico com toda aquela nostalgia pulsante, transportando para um período há muito esquecido, O Paço da Liberdade com seu café Cult e incrementado, o Largo da Ordem e suas ébrias lembranças, o andar cambaleante pelas pedras irregulares do antigo calçamento... A Riachuelo com seu cheiro tão peculiar de móveis antigos... Aquele cheiro de madeira crua transporta-me para um passado que nem eu mesma conheço... A Praça Santos Andrade: Minha vista de todas as manhãs, UFPR prédio histórico... Quanta inspiração... Somada ao sonho de um dia, quem sabe, fazer parte daquilo... E agora fazer...

Logo mais para frente à Reitoria... Oh, quantas vezes me derrubastes, me carregastes para um mundo paralelo, me destes a sensação de um amor mal resolvido que iria insistir por anos em invadir meus pensamentos... Todas aquelas pessoas tão estranhas para os outros, tão semelhantes para mim... O ogrobol... O DCE com suas paredes forradas de tantas coisas, tantos pensamentos, tantas ideologias, uma frase de Leminski... Assim como vejo vez que outra na parte da Arquitetura do Politécnico... Politécnico seus gramados tão desejados, o cheiro da grama quando recém-cortada, o cheiro de mato tão raro, tão ressaltante, tão apaixonante... 

Os lugares turísticos os quais para mim sempre terão o mesmo encanto desde a primeira vez que os vi, o modo de vida peculiar da cidade, tão semelhante ao meu, tão rude, reservado,  seus hábitos típicos, seus inverno rigoroso acompanhado de um quentão da Praça Osório se torna algo bem-vindo. Essa cidade exala um cheiro de cultura. Tão próprio... Aqui posso discutir Literatura, Filosofia, Sociologia que as pessoas costumam ler, costumam ir ao teatro, costumam não me achar um aliem como na minha cidade pequena, provinciana, tomada por pescadores onde ao citar Nietszche as pessoas ou se benziam ou desejavam saúde...

 Adoro ir na XV e ver o povo... Sempre tão peculiar... As figuras ilustres como o Oil Man, na faculdade ainda tem o Dance Boy... Todos de algum modo ligados ao estudo da vida... Sinto que tenho a possibilidade de me tornar um personagem semelhante, caso eu acabe não resistindo e ficando passando a linha da loucura considerada normal...

Sinto-me em casa, nesta cidade, mesmo não tendo nenhum parente por perto a grande maioria dos meus amigos são daqui, os quais todos nasceram, cresceram aqui estão, daqui reclamam, mas também partilham tão intenso sentimento. Sair e ir para o Largo é sempre tão bom, mesmo que seja para ir ao mesmo bar, ouvir a mesma banda, com os mesmos amigos, na verdade é assim que eu gosto mais. Dia desses resolvi sair em Balneário Camboriú... Fui ruim como sempre é... Lembro-me de ter gostado apenas em duas ocasiões, geralmente acontecem coisas ruins... Mas isso é outra história, vou indo, pois já falei demais por hoje.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Geada e Neblina

“Você tem que mudá o finar da minha história” dizia a voz dentro dela. Acordará de forma nebulosa, dia com cerração baixa, daqueles dias os quais é difícil acreditar na sabedoria popular “cerração baixa, sol que racha” na verdade... Pensando bem... Isso nem rima. A neblina encobria a cidade, parecia que noite, mas era o inicio do dia, que pelo visto nem teria começado. Pensará ela então o porquê dessa frase em sua cabeça, a frase do filme dublado, aquela dublagem tão engraçada e patética, que faz esse suspense se transformar em comédia, tal qual sua vida a qual também vinha sofrendo com tal metamorfose.

Acorda, prepara o café, liga a TV, descobriu quanto estava valendo o quilo da soja, descobre a cotação do dólar, coisas tão longe da vida dela, mas ao mesmo tempo tão presentes. Acordará mais cedo, para aproveitar melhor o dia. Tomara café, sentará e observara o movimento, a bela vista histórica de seu apartamento, tão velho quanto. Observava as pessoas a andarem rapidamente todas encasacadas, o relógio marcando -2ºC, e ela acordada, em frente à janela “suada” nada por fazer, quis acordar mais cedo apenas para ter mais tempo para não fazer nada.

 Lembrou da voz daquele carinha nerd a lhe dizer que o tempo ocioso é tempo desperdiçado, pobre garoto esperto, dito tão inteligente, mas com tanto para aprender... Para ela esse era o único tempo realmente vivido, dedicado única e exclusivamente a viver, voltando à atenção para o mundo que o cerca...  Para seu verdadeiro ser e não para se sustentar, ser forçado a aprender, nunca deixamos de aprender, só tornamos o aprendizado chato, cansativo e pragmático, menos filosófico e mais objetivo, o deixamos desnudo e gélido para então devorarmos. É isso que as escolas fazem, sempre fizeram. Gostava muito de aprender, mas de maneira descompromissada, de maneira romântica em baixo de uma arvore, no tapete da sala, não em cima de uma mesa, com uma cadeira dura e fria em um lugar tão bem iluminado. 

domingo, 26 de junho de 2011

A Tranquilidade do Mar

“Parece-me que ao me debruçar sobre o passado posso tocá-lo, mera ilusão lendária para fazer-me morrer afogada ao ver meu reflexo deturpado.”

Voltei, voltei para passar alguns dias. Relembrar o tédio adolescente... Esconder-me novamente... Dentro do meu quarto com meus amigos póstumos, esconder-me de toda humanidade, de todo o frio do lado de fora.

Voltei aos velhos dias e entendi porque sinto que o tempo tem passado tão rápido. Aqui ele congela, se esvai lentamente, as horas daqui são como dias de lá. Após a maioridade não os  vi passar, mas isso não deve ao fato de ter crescido, mas sim por ter me mudado. O tédio me consome como as batidas da onda do mar hipnotizam. Não sei como consegui viver tanto tempo aqui... Tanto tempo, tanto tédio, sem desenvolver nenhum tipo de adição ou doença psíquica. Somente desenvolvi meu afastamento social e fortaleci minhas amizades com esse povo que já partiu desta há muitos e muitos anos.

Agora é o momento que me perguntas por que então não volto para meu quarto, revejo as velhas amizades e paro de reclamar?! Estou de férias, de fato não quero me ocupar. Minha mente pelo menos não. Gostaria de ocupar-me sem grandes afazeres intelectuais.

Meus amigos se mudaram, alguns até já casaram e pensava eu que as pessoas não faziam mais isso... Outros já me esqueceram, de alguns eu mesma custo a lembrar, a maior parte, meros conhecidos com alguns trechos na minha vida, muitos com um espaço grande lá dentro. Nenhum aqui nem agora.

 Acho que vou voltar lá jogar bisca com meu avô, tomar um chimarrão,  ver sua nova velha invenção, ouvi-lo exaltar as belezas da natureza; ouvir as lembranças hipocondríacas da minha avó, seus comentários de como estou magra, o seu oferecer de pão, cuca, bolacha, chá, suas histórias e suas nostalgias, diferentes das minhas. Pois é isso também disso que eu sinto falta e faze-me sentir em casa. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Coisas que só acontecem comigo, parte 6

Sabe o que é estar na hora certa no local certo? Bem... Ás vezes é mais ou menos assim...

Antes disso... Não, você não postei a parte de 1 a 5 no blog, mas não quer dizer que não aconteceram, é que apenas essa resolvi relatar. Irei mais uma vez quebrar um pouco com o estilo e com o padrão deste blog, não abordando mais memórias ou nostalgia, mas sim algo que me aconteceu hoje, abandonando um pouco a narrativa descritiva e partindo para uma crônica de mais um dia.

Tudo certo para a viagem, férias, férias, férias, mal poderia esperar. Tudo planejado, sair as 11:21hs da prova para da tempo de pegar o ônibus, passar em casa, passar no Subway pegar um sanduiche e correr para pegar o ônibus das 13:15 hs. Quase perdi o horário do ônibus, sai 11:24 hs da aula, se perdesse esse ônibus não chegaria a tempo de pegar a mala, pegar o lanche e ir para a rodoviária. E qualquer menor deslize era o fim. Um pequeno atraso atrasaria outra coisa e tudo cairia por terra, tal e qual um daqueles dominós. Porque pegar esse ônibus tão cedo então? Evitar congestionamento. Além de férias é feriadão...
Pois bem, após alguns percalços e muita correria enfim cheguei, sentei no ônibus, estava já abrindo meu Kafka quando sou interrompida por uma senhora: “a poltrona 23 é minha” olho sua passagem, ela olha a minha... Sua passagem é só para dia 29, hoje é 22. Game over. Toda a estratégia foi perdida.

“Ô moço, comprei essa passagem aqui, mas comprei pela internet, vi errado o dia, sabe como é, muita “tecnoloxia, nene” a “xente” não tá “acustumatu””. Não, não falei nem assim, mas foi como me vi, uma senhora de seus 65 anos que viveu muito tempo na colônia tentando se modernizar.

Passagem agora para esse destino apenas as 23:30hs, senhora.Comprei então para a cidade vizinha.

Ao ir embora vejo uma guria que tentar retirar sua passagem para o mesmo destino que o meu “o ônibus acabou de sair”, agora só 23:30....

Poderia ter ido naquele... É... Estava na hora certa, no local certo, na semana errada.

domingo, 12 de junho de 2011

Ode a quem nunca mais vi passar

Nostalgia de andar sozinha pelas ruas, fim de tarde, fim de semana, domingo entediante, olhar para o meu caminhar, a sucessão de passos, all star furado, desbotado, a sucessão de poucas pessoas na rua, o passar do tempo esperando encontrá-lo...  Nada com ele marcado... Cidade pequena... Um único caminho, pelo domingo, ele haveria de passar. Coincidência fácil de forjar. Saudade desses encontros tão falsamente inesperados, saudades daquele sorriso tão amplamente sincero o qual estancava os esfolados adolescentes das minhas pernas finas cobertas por meias coloridas. Sorriso contagiante que mudava a cor da penumbra do anoitecer de um dia tão cinza. Os anos voaram como o tempo que levei para encontrá-lo ao dobrar aquela esquina.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Soar da Campainha

Ela estava em casa, entediada quando escuta-a soar, escuta, uma, duas, três vezes... Sempre quem costuma tocar é uma amiga da sua companhia de despesas... Mas desta vez ela não está, logo não sabe bem o que fazer...  Se fosse na sua antiga casa, sabendo que a pessoa procurava por sua mãe e esta não se encontrava, apenas se fingiria de morta e continuaria esticada no quarto sem movimentar nenhum músculo estriado, apenas o cardíaco e aqueles necessários para a respiração. 

 Mas desta vez, na esperança de algo afastar seu tédio resolve atender: quem sabe alguma visita inesperada para retirar esse vazio da alma, para gastar essa energia que de tão acumulada se tornou inerte?! Seus amigos faziam meses que não a vinham ver, quem sabe alguém resolveu testar se ela ainda compartilhava esta sala de espera chamada Existência...

Mas tal atitude não era muito do feitio destes. E ela muitas vezes na solidão da antiga casa se deparava com o pensamento de uma morte sorrateira, com as vizinhas reclamando do fedor de putrefação, e sendo este o único indicativo de sua morte, além, é claro da falta do pagamento do aluguel. A vigilância sanitária sendo chamada, nada podendo fazer, a ordem de despejo... Todos os tramites legais, a porta arrombada enfim. A notícia no elevador do prédio, no jornal sensacionalista da cidade, aqueles em que se aperta e sai sangue... A violação de sua privacidade póstuma... Privacidade aquela tão bem mantida que lhe custou o esquecimento, de tudo e de todos. A notícia de sua morte utilizada então por um cachorro em algum canto da cidade ou viajando ao embalar alguma coisa mais frágil do que ela... Noticia descartável. A rede de informações a passar, fofocas, redes sociais... Até atingir alguém  que costumava conhecê-la, e então o franzir da testa, o sobrecenho enigmático, como se isto auxiliasse as sinapses... E enfim a recordação “Ah, acho que me sei quem foi esta... Ela era meio estranha, sempre andava rápido, as pessoas faziam piada dizendo que ela corria como o Naruto... Mas nunca vi ninguém falar diretamente com ela... Creio que fosse um tanto quanto anti-social, sempre estava no seu mundo com fones de ouvido ou com um livro do Dostoiévski... Morreu jovem, apesar de ter a alma de uma velha... Pobre criança.” Béééé! A campainha lhe trás de volta a superfície do mar gelado de seus devaneios.

A capainha tocava pela última vez, ela vai até lá, correndo, como se quisesse evitar aquele pesadelo imaginativo. Ela abre a porta e busca ver quem estaria lá como testemunha de sua existência. O ímpeto é dilacerado, mais uma vez, não era para ela. Era o filho mais novo da senhorinha que mora ao lado.
Pensa neste instante que a vida até pode ter seu sentido, mas não para ela. Quem sabe algum dia seja para ela. Dia no qual provavelmente alguém tocará na sua porta, provavelmente algum levando a palavra de D... Digo, da igreja a qual ela pertence. Ela e senhora D, derrelição... Mais uma coisa em comum, e ela volta a recortar seus peixes de papel pardo.